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A idiotia cavalga solta

Ilustração de ALima

Estaríamos chegando ao clímax da imbecilidade

por ALima

A idiotia tem avançado perigosamente no mundo todo nesses últimos tempos, numa forte projeção do que seremos nós, humanoides, muito em breve: uma gigantesca sociedade de energúmenos fundamentais, totalmente globalizada e pronta para absorção dos inventos tecnológicos inúteis ou não.

A morte definitiva das artes, do pensamento mais lúcido e da solidariedade entre os indivíduos.

Ficaremos todos subordinados a um só mandatário - justo aquele que detiver as melhores armas, o controle total da mídia e do cartão de crédito.

Qualquer nacionalista sonhador será eliminado de modo sumário, até para que não prospere em nenhuma cabeça o sentido de pátria, dignidade ou coisa que o valha.

Países amplamente povoados e de pouco poder consumista serão varridos de mapa, se não por cataclismos naturais, por meio de algum poderoso artefato concebido pelo senhor de nós todos.

O tão sonhado controle demográfico, a profilaxia da alma e assepsia do planeta, finalmente conquistados, sem grandes traumas.

Leiam a seguir alguns trechos do meu livro Exuberante Pós-nada - Itinerário Ilógico da Razão - obra inútil, sabiamente ignorada pelos senhores que controlam os parques gráficos, e que só foi publicada  no papel por culpa de um prêmio absurdo da Secretaria de Cultura do meu Estado:

Parêntese para o discurso não menos panfletário de um utopista à beira do delírio dirigido aos moços que não abdicaram ao sonho de acreditarem veementemente no sublime propósito das forças invisíveis e descomunais que regem a natureza das coisas e do indivíduo pos-nada:

Os sábios manipuladores de mentes e fortunas cuidam que a tática de equilíbrio moral das raças através da estabilidade demográfica e conseqüente domínio sobre os remanescentes dos povos a serem eliminados necessita de enérgico impulso em áreas de fundamental importância, para que, só assim, se restabeleça de forma definitiva o controle da espécie. A saber:

1.1 Compactar em um só eixo, de forma mais efetiva, todos os conluios secretos de mandatários das nações consorciadas que obterão o controle total;

1.2 Excitamento a guerras entre povos cujos objetivos político, econômico e sociais sejam inutilmente semelhantes;

1.3 Fabricação acelerada de armamentos mais sofisticados e eficientes para intimidação das massas que teimarem em resistir aos avanços;

1.4 Extermínio de bichos imprestáveis, livros e plantas;

1.5 Massacre sistemático de índios, invertidos, anciões, crianças, poetas e demais seres primitivos;

1.6 Incremento na esterilização de mulheres jovens e enclausuramento voluntário às mais céticas ou envelhecidas;

1.7 Morte imediata aos escritores-cabeça, blogueiros autônomos, cantores pops e demais artistas que enveredarem pelo obscuro caminho do bom pensamento contemporâneo;

1.8 Confisco de acervos particulares constituídos por obras literárias que excitem questionamentos ou elevem o espírito - que deverão sofrer processo de readaptação aos novos tempos -, tarefa essa que ficará a cargo da Companhia das Letras;

1.9 Massificação, via mídia eletrônica, de livros voltados apenas para o riso e o esoterismo;

2.4 Degradação da família mais conservadora e aperfeiçoamento do crime hediondo via TV;

2.5 Rígido controle das águas subterrâneas, para escoamento apenas industrial e bem remunerado;

2.6 Poluição contínua de rios, oceanos e atmosfera com gases não devidamente catalogados nos compêndios científicos;

2.7 Substituição do homem pela máquina em todos os setores de geração da Economia;

2.8 Cada fábrica deverá ser comandada por não mais que um indivíduo e seu computador, que controlarão equipes inteiras de robôs veramente ágeis no escoamento de itens acondicionados em prateleiras gigantescas, de onde serão selecionados por eficientes e possantes braços mecanizados, para venda exclusiva através do cartão de crédito;

2.9 Que toda grande loja de departamentos, farmácias, postos de combustíveis, restaurantes ou supermercados eliminem seus quadros de atendentes, empacotadores e façam de cada freguês um solícito serviçal;

Obrigatoriedade - estabelecida por decreto - de que o sistema bancário não mais disponha do braço humano: cada agência terá enorme olho mágico a comandar formidável bateria de caixas eletrônicos que igualmente servirão como máquinas caça-níqueis, vendedoras automáticas de coca-cola, hambúrgueres e hot dogs...
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O livro, visto por mim:
Exuberante Pós-nada é um romance narrado em primeira pessoa pelo personagem central. Na trama não há aquele andamento dos enredos tradicionais, tampouco o autor parte para as invencionices com propósito único de obter efeitos miraculosos e angariar crítica favorável daqueles que são sempre receptivos aos experimentos. Trata-se, contudo, de um texto original em vários aspectos, inclusive na ruptura com os modelos pré-estabelecidos para as obras de maior curso, tais como a caracterização de ambientes ou o apego exagerado às minúcias sentimentais, muito embora o tema se prenda ao conturbado relacionamento entre uma jovem iniciante na literatura e dois escritores com maior experiência, todos em busca de fama. O que se vê, ao decorrer da narrativa, é a angústia desse escritor-personagem, o fluxo de uma consciência abalada pela traição amorosa, e o seu próprio desencanto com relação à Literatura - que passa a tratar como arte menor, panfletária e nada mais. O livro seria, portanto, um flagrante dos dias atuais. O pós-nada em que vivemos. A busca da fama a qualquer preço. A inversão de valores. O fracasso. A inveja. O homem disperso de si mesmo, ávido por consumir todo o lixo cultural que o grande irmão nos oferece. É mais ou menos por aí.
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