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O Poder arbitrário da Palavra Escrita

A História que jamais será contada

ALima

O insensato busca o poder para imbuir-se da falsa sensação de eternidade, mesmo sabendo que, tanto quanto ele, sucumbirá a obra que por ventura vier a produzir, não sendo essa suficientemente meritória.

Mata pelo poder. Destrói. Trai. Corrompe e se deixa corromper. 

Não me refiro apenas ao poder da grana e das armas - se bem seja esse último o que eleva o outro à condição de opressor máximo da humanidade. Faço alusão a mais terrível e devastadora de todas as tiranias, que emana de sutil sistema supostamente essencial ao desenvolvimento da raça: o poder da palavra escrita, com toda sua descomunal teia disseminadora de farsas no mundo globalizado, seja através de livros, jornais e revistas impressos ou qualquer outro tipo de mídia que surja no rastro das tecnologias mais avançadas, a exemplo da própria internet. 

Um universo, portanto, que tanto poderá nos trazer algum benefício, quanto nos arruinar de modo irreversível, dependendo tão somente do interesse de quem o manipula. 

Começa por ser um poder que estabelece as obras que serão publicadas, assim como os autores a serem legitimados ou destruídos. 

O poderoso segmento da imprensa, por exemplo, escolherá o tipo de notícia a ser direcionada ao grande público ou desse sonegada, assim como os motores de busca da internet determinarão o modelo de texto que deve ou não ser lido no mundo virtual. 

Observem que até os softwares são programados para limitarem o texto do cidadão que pensa: ao digitar um artigo qualquer, mal você começa a desenvolver seu raciocínio, a máquina informará que você está se excedendo em palavras. Um texto como este, por exemplo, jamais será lido pelo grande público internético. No máximo dois ou três navegantes o abrirão por acaso, numa pesquisa aleatória. Enquanto isso, a tolice proferida por um midiático qualquer, com propósito único de induzir ao consumo ou formar a falsa opinião, levará a milhares de acessos. E todo esse descalabro, evidentemente, com ares de legalidade, vez que endossado pelos mandatários de outros poderes não menos espúrios, o que nos mostra claramente o quanto de informações preciosas nos tem sido sonegadas ao longo da história, nos levando a conceber idéias distorcidas sobre os fatos mais relevantes que delinearam a trajetória humana.

Imaginemos o quanto a humanidade teria registrado em papiros desde 3200 anos de Cristo, quando o homem obteve o domínio da escrita e passou a contabilizar os seus produtos, arrecadações, ao mesmo tempo em que também se desenvolvia no mundo alguma forma de pensamento artístico ou filosófico em que muitos se davam às anotações desses fatos como processo natural da evolução do indivíduo. Tudo isso, claro, para que, dois mil e tantos anos depois, outro sujeito tivesse a sublime ideia de criar uma magnífica biblioteca que pudesse abrigar toda essa substância cultural produzida até então, longe de imaginar que um sacripanta lhe arrebataria o poder e simplesmente destruiria tudo, sob alegativa de que nada daquilo teria qualquer valor para as gerações futuras.

Quando o cara mandou tocar fogo na Biblioteca de Alexandria, certamente não exercitava ali apenas o seu poder arbitrário, satisfazendo assim alguma de suas taras. Queria, mais que isso, estabelecer um conceito, implementar uma ideia. Apagar da história tudo aquilo que fosse contrário ao seu próprio pensamento. Uma monstruosidade cujo malefício para a humanidade jamais poderia ser dimensionado em toda sua extensão. Ora, se o tirano preservou apenas os trabalhos de meia dúzia de pensadores, o que nos garantiria que não houvesse ali naquele precioso acervo destruído outros filósofos da mesma envergadura desses, porém com outra visão do mundo?! Quantos poetas épicos, sábios, profetas ou mesmo simples e sinceros observadores das coisas do seu tempo teriam realmente escapado daquela insanidade?

Se fizermos ligeiro retrospecto sobre a História da Literatura na era dito moderna, ou da Filosofia e das artes de um modo geral, qualquer estudioso será capaz de enumerar todos os movimentos e correntes, em qualquer parte do mundo, inclusive com citação de seus signatários, autores e livros mais representativos, embora isso em nada nos assegure que estejamos diante do melhor e mais representativo de uma época.

Conclusão: nada sabemos da verdadeira história da humanidade e por isso mesmo temos sido presas fáceis dos tiranos da palavra ao longo do tempo.

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