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Ensaio Mínimo Sobre Belas Artes

Ilustração: James Kafka



Bazar de inutilidades


ALimaS


Literatura é a manifestação mais lúcida e importante dentre todas que alimentam o espírito superior.

Não me refiro, evidentemente, ao gesto comum de ler, escrever e publicar livros sobre os mais variados temas à disposição de qualquer indivíduo com algum entendimento de gramática, considerando que papel A4 e blog da internet comportam tudo. Reflito sobre arte maior, acessível apenas aos que foram selecionados naturalmente, e da qual se nutrem todas as demais formas de expressão artística, desde os primórdios. A reflexão de seres iluminados que traçaram diretrizes para a humanidade, estabeleceram conceitos, intuíram a ciência, a filosofia, o futuro, desnudando, enfim, toda nossa insignificância perante Deus. 

Na pintura o artista criará algo palpável, que provocará reações previsíveis naquele que observa: impacto, pela beleza plástica do objeto; encanto, por sua perfeita distribuição de cores; pasmo, pelo surrealismo da cena, ou simples curiosidade por querer desvendar aquilo que, à primeira vista, possa lhe parecer estranho. 

Do mesmo modo com relação à música, em que o agente optará por elementos harmônicos e melódicos dentro de padrões pré-estabelecidos, que despertarão estímulos momentâneos e também previsíveis no receptor: prazer, quietude, ou mesmo estupidez, a depender da alma de cada um. A mente belicista se suprirá de Wagner, assim como a lírica, de Franz Liszt, e outra mais ao batuque de um samba, polka ou merengue. 

Tudo sensações efêmeras, deleite fugaz, a exemplo de você deslumbrar-se diante de magnífica escultura de Michelangelo e, num lapso, a imagem fragmentar-se em sua mente, dado que havia ali um símbolo majestoso, porém estático; belo, mas incapaz de despertar em você qualquer outro sentimento mais duradouro e imprescindível ao seu desenvolvimento intelectual. 

Com a literatura, não. Temos o gênio a percorrer-se para nos desvendar algo, e nós, patéticos, ao contato com a brochura rota, desfigurada a enfeixar somente um monte de letrinhas. Nada que nos comova ou nos desperte qualquer reação imediata, que não seja o gesto automático de folheá-la... quando, então, se dará o milagre.

Uma palavrinha só, comum, captada a esmo, e que, se unindo a outras e outras mais, terão o dom de nos fazer prodigiosas revelações. A cumplicidade ou partilha sem qualquer subterfúgio, num abrir e fechar de páginas. Movimento espontâneo, mágico, dado que o verdadeiro artista jamais se incumbiria do discurso oco, caricato, fosse no poema longo, conto mínimo ou folhas fartas de um romance.

Mais que o efeito estilístico - válido e necessário nas melhores composições -, o destinatário de uma composição literária analisaria o alcance daquele fluxo de consciência, o vínculo entre esse e aquele axioma, a descrição mais sutil de coisas diluíveis porém essenciais ao desenvolvimento do texto, e, por fim, a penetração psicológica. A essência da narrativa. O recado à humanidade que o autor está passando, assim como fizeram Homero, Voltaire, Maquiavel e outros mais.

Porque o luminar da escrita não mira apenas seus pares, como dizem os menos hábeis. Camões, por exemplo, ao esculpir Os Lusíadas, não queria exibir-se para outros poetas ou informar que Petrarca lhe transmitira ensinamentos fundamentais. Tinha consciência de que acabara de erguer um monumento à Poesia Universal. Assim como se sentiu Dante em relação à Divina Comédia, Milton ao desvendar o Paraíso Perdido, Cervantes ao erguer Dom Quixote, ou Shakespeare ao admitir a grandiosidade da própria obra. 

A literatura, portanto, jamais será acessível à mente comum. Não basta empunhar uma caneta ou martelar um teclado e divagar sobre vários assuntos para se dizer escritor. Muitos serão capazes de escrever quatrocentos contos, oitocentos poemas, cento e vinte romances, sem que isso lhes garanta essa sublime condição. Se dono de algum talento, o homem comum deve contentar-se em poder assimilar uma grande mensagem, percorrer seu ídolo máximo ou transcrevê-lo em paródia, como fizeram James Joyce, Jorge Luís Borges e tantos mais. Dizer-se escritor, não seria razoável! 

E dessa reflexão, claro, não excluo aqueles que obtiveram maior visibilidade a partir do século das transformações, tornando-se matrizes para uma infinidade de outros escrevedores ao redor do planeta, na sua maioria seres melancólicos, perversos, ou apenas divertidos, a divagarem sobre suas próprias angústias e limitações, como se fizessem inúteis apontamentos em um diário. 

Aqui e ali, naturalmente, o talento daquele observador mais sagaz, a exemplo de Balzac, Proust ou Victor Hugo. O lampejo de estilistas notáveis como Baudelaire, Rimbaud e Paul Verlaine, ou mesmo o ímpeto dos simples contestadores e visionários que só haveriam de se tornar essenciais em determinado momento, até por ensejarem discussões sobre o fazer literário. Parnasianos e simbolistas, partidários do romantismos ou do naturalismo, excêntricos e realistas; nenhum, contudo, que pudesse estufar o peito e dizer: produzi uma grande obra. 

Quanto a nós outros, escrevinhadores das inutilidades presentes, só nos resta a futrica. O bazar. A busca inconsequente por um minuto de fama. E admitir, sobretudo, que não passamos de meros rascunhos dos copiadores pós-modernistas. Teimosos periféricos perseguindo a frasesinha idiota, o efeito mais brando dessa ou daquela armação, o verbo inexpressivo que pontuará nosso texto reles - descartável. Como este.

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