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07/05/11

Victor Hugo viu em Rimbaud um mero Shakespeare infantil


Epílogo de um romance trágico

Astolfo Lima

Pela manhã Paul Verlaine estivera na loja do armeiro Jerome, que o indicou bela pistola Bunney 1872, supondo que o poeta buscasse mais uma peça para sua coleção particular. Não desconfiou de seus gestos arrebatados e voz claudicante, tampouco quando solicitou razoável quantidade de munição. Paul estaria apenas embriagado, como de costume.
Outros testemunhos, entanto, afirmam que Verlaine mão estava bêbado: nem quando adquiriu a tal arma nem no momento em que desferiu um tiro à queima-roupa contra Arthur Rimbaud, atingindo-o no dedão em que ostentava elegante aliança de prata. Verlaine achava-se simplesmente corroído pelo ciúme, que o fizera inclusive abandonar a esposa Mathilde junto com o pequeno Jean - filho único do casal - em quem o enfurecido Paul ainda aplicou piparotes, deixando-o aos gritos.
A versão de embriaguês aliada ao ciúme mórbido ganha importância pelo fato de que Rimbaud pôde dominar facilmente o corpulento colega, tomando-lhe a pistola antes que fizesse o segundo disparo, acertando dois chutes no seu traseiro e vocifendo: "Sert de leçon, bâtard d'une figue!". Uma colocação - diga-se - que também coincide com afirmações de Mallarmé, Paul Valéry, Albert Samain e vários outros vates alucinados que costumavam acompanhar les amants em atormentadas noites absínticas. Obscuro, apenas o fato de Verlaine ter sido preso por tentativa de homicídio, mesmo não havendo denúncia formal contra si, enquanto Rimbaud partia livre no rumo da África, abdicando de uma até então vitoriosa trajetória poética, se bem que um tanto chamuscada naquele momento por conta de irônica declaração de Victor Hugo, que vira em Rimbaud não mais que um Shakespeare infantil.
Para esse desfecho melancólico, aliás, a crônica mundana da época também tem a sua interpretação, que  evidentemente não pode ser dada como definitiva: Rimbaud ficara bastante deprimido com as declarações de Hugo, sim, porém o motivo real que o levara à fuga para outro continente atendia a um interesse de ordem meramente pecuniária: Arthur Rimbaud achava que negociando armas e escravos, logo enriqueceria, podendo dessa forma dedicar-se em tempo integral à sua poesia.
Só não contava com a garra traiçoeira do destino, que o arrebataria no instante em que preparava sua grande cartada.



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