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14.11.09

O Desrespeito Pela Vida

O Drama Existencial de um Autor Perverso
Astolfo Lima
Já comentei inúmeras vezes que o folhetim televisivo é uma das maiores desgraças nacionais. Depois que se foram Dias Gomes e Janete Clair, acabou-se aquela coisa da história amena, do puro entretenimento - características fundamentais para um programa direcionado ao grande público, que adentra nossa casa sem pedir licença e na hora em que a família está toda reunida na sala.
Também já falei muitas e muitas vezes sobre a liberdade de expressão, a licença poética, o direito que qualquer autor deve ter para expor sua arte, seja no livro de papel, no cinema ou no palco. Tanto é esse o meu pensamento, que posso muito bem deliciar-me com as obscenidades literárias de Joyce, do próprio Marquês de Sade,com os versos nefastos de Baudelaire ou de Augusto dos Anjos, com o pessimismo da Clarice, a angústia do Graciliano e até com a podridão estilística de Nelson Rodrigues. Porque, na literatura, tudo é válido, e aí seria tão somente uma opção minha ou sua, uma coisa bem particular nossa; o sagrado direito que qualquer cidadão deve ter  para escolher suas leituras ou o tipo de lazer a que se deve permitir. Exatamente o contrário do que ocorre no cronograma televisivo com relação à sociedade.
Como entender, por exemplo, que um autor visivelmente amargurado, padecendo por certo de alguma moléstia física (com fortes reflexos no lado psicológico, influindo sobremaneira no aspecto criativo) se ache no direito de levar aos lares brasileiros, em forma de folhetim, todas essas mazelas que lhe inquietam o espírito? Ora, meus amigos, dizer no papel que a mocinha linda, talentosa e cheia de vida, cujo pai infiel  troca sua exemplar genitora por uma jovem modelo, vindo essa filha logo em seguida a sofrer um desastre que a tornará tetraplégica, não é a mesma coisa que mostrar todo o infortúnio através de imagens e ainda o fazendo acompanhar-se de fundo musical extremamente pessimista, ao dizer que o indivíduo mal nasce já começa a morrer. Isso sem contar  os muitos desvios morais e desavenças que fluirão pararelos em todo o desenrolar da sordidez central, como o da moçoila que se consome em inveja, da outra que se mutila em drogas ou do irmão gêmeo que tenta assassinar friamente a sua outra metade.
É, meus amigos, quando o sr. Dias Gomes queria alavancar audiência para a Globo, não precisava se expor ao ridículo nem agredir a família nacional: apenas tirava do surreal, com toda aquela maestria que lhe era peculiar, um personagem que logo faria a alegria do povão, e também do povinho metido a besta . Da mesma forma que a sra. Janete, que nunca precisou se valer de mesquinharias familiares e outras monstrusidades para construir uma bela tramna de amor.
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