A Grande Farsa
Astolfo Lima
O Governo Lula, pelo qual tanto lutei, juntamente com toda a minha família; meus filhos ainda crianças correndo comigo dentro de um fusca velho, fazendo panfletagem em porta de fábricas, igrejas e supermercados; correndo todos nós, minha mulher, inclusive, todos tremulando bandeiras vermelhas, saindo no tapa quando o momento exigia, quase desvairados todos nós, discutindo com um e com outro, perdendo amigos, ganhando desafetos, acreditando, acreditando; o carro velho caindo aos pedaços com adesivos até nos pneus, pouca grana pra gasolina mas ainda assim acreditando, nos desesperando, coisa de louco; um ideal, um sonho, um incomensurável desejo por justiça; acreditando naquele metalúrgico nordestino, sofrido, escorraçado, pai de família como eu, ainda que não tivesse sofrido como eu no tempo da gloriosa porque afinal se tratava de Lula da Silva - o metalúrgico respeitado por doutores, poetas e até pelos milicos de mais juízo que sabiam perfeitamente a merda que daria se aloprassem pra cima do líder carismático fadado a ser Presidente um dia. Lutando, lutando para ver Lula no Planalto; uma luta anônima, aparentemente insignificante porém muito mais nobre e mais intensa que a dos que se moviam pela simples ambição do Poder, da fama ou da grana que entorpeceria mentes e encheria cuecas. Luta de um pai de família honesto que um dia, menino, sonhou em comandar um navio da armada nacional, mas ao invés disso seria estupidamente expulso da Marinha por motivação política, para iniciar um calvário que não teria mais fim... Ah, se arrependimento matasse! Não mata, mas deixa marcas terrivelmente profundas. Uma sensação amarga, dolorosa demais e praticamente impossível de ser debelada, uma vez que encasquetada no teu cérebro, te mostrando a toda hora quão estúpido fostes tu em toda tua inútil trajetória de sonhador.
Dói terrivelmente tu sentires o tempo escoar, tua fronte embranquecer, tuas pernas se tornarem flácidas, enqunto tu percebes que toda tua luta foi em vão, que tudo aquilo pelo qual entregaste praticamente os melhores anos de tua vida, era apenas uma farsa e que o grande cafajeste da história fostes tão somente tu, que, em vez de guardares apenas para ti os teus sonhos absurdos, ainda os quiseste dividir com aqueles que te eram mais caros e verdadeiramente te amavam. Tu, sim, que fostes um infame e egoísta, e é bem-feito que pagues agora por tuas idéias estapafúrdias, tuas lutas inglórias, tuas inúteis reflexões.
A dor a que me refiro é impossível de ser externada com simples palavras quando movido se está pela revolta, o desengano, a decepção. Dor que machuca a alma - talvez fosse esse lugar-comum a melhor imagem para descrever meu sentimento nesse exato instante. Para entendê-la, bastaria que os senhores imaginassem um cidadão nessas ciercunstâncias, há dez anos com um processo mofando numa festiva Comissão de Anistia criada para reparar descalabros de uma ditadura, mas que parece ter se fixado primeiro nas figuras midiáticas, de grande projeção nacional e até internacional. Vasculhem a relação de anistiados dessa injusta comissão e os senhores verão jornalistas milionários, ex-ministros, escritores, artistas, políticos que jamais deixaram de mamar nas tetas do Governo ou se pendurarem nos melhores empregos da iniciativa privada; de tudo os senhores verão. Até alguns supostos perseguidos internacionais tentam tirar casquinhas dessas franquias. Enquanto isso, nos subterrâneos desse malfadado ógão, milhares de processos referentes aos bagrinhos estão apodrecendo, sem que essa praga de Governo que irá se acabar em breve tenha o mínimo de respeito por esses massacrados cidadãos. Ah, peste! E o pior de tudo é que eles desrespeitam o cidadão comum de forma desavergonhada mesmo, às escâncaras; são desalmados; atropelam até a Constituição. Negam um pedido de anistia a um perseguido sem projeção midiática, não comunicam à vítima sobre os seus direitos constitucionais de recorrer, o prejudicado busca amparo jurídico, mune-se de provas irrefutáveis, entra com o Recurso e eles simplesmente dão o silêncio como resposta, embora já se tenha passado mais dois anos. Nem no quente da ditadura, deparei figuras tão perversas e srelapsas quanto essas que bailam ao som do besouro azul deste Governo. Lembro que às vésperas de ser expulso da Armada por pura perseguição política, dirigi-me a um Capitão de Corveta tido como linha dura e a ele quase implorei para não ser recolhido ao presídio do Corpo de Fuzileiros Navais, já que temia ser jogado em alto mar na calada da noite. Falei exatamente assim. Que havia deixado no norte uma mãe que muito me amava e uma namorada com quem pretendia constituir família e sentia enorme receio de me tornar apenas isca para tubarão. Falei de tal modo espontâneo, que aquele milico pouco afeito aos sentimentalismos, encarou-me por alguns segundos e disse, sem disfarçar uma certa pena: "não existe isso. Pode ir sem medo". E fui cumprir uma prisão que marcaria profundamente minha vida, não por ter sido jogado ao mar, evidentemente, mas pelo que assisti nos porões da Ilha das Cobras. Como se vê, uma atitude completamente oposta a desses mandarins festivos. Quando a badalada e pouco produtiva "Caravana da Anistia" esteve aqui em Fortaleza, e cai na tolice de ir ao encontro dela, na Assembléia Legislativa, foi só para incrementar meu desgosto. Nenhum que se dignasse ouvir a minha história. Todos, ali, absolutamente todos em busca de holofotes e nada mais, e eu, ilógico, distribuindo o livro que passei exatos cinco anos a escrevê-lo, imaginando que daquela forma pudesse sensibilizar aqueles desalmados. Ora, e eles já terão lido algum romance na vida que não fosse de Paulo Coelho ou de Carlos Heitor Cony?!
Mas tudo bem. Recorrendo ao magistral personagem de Voltaire que via luz até no mais tenebroso breu, também já vislumbro o lado positivo de todo esse infortúnio de que estou sendo vítima. Todos os meus esforços físicos e intelectuais, doravante, serão direcionados para desmistificasr a grande fasrsa. Toda a minha panfletagem futura, meu discurso, minha escrita, tudo, tudo. Inútil? Veremos. Quando não, servirá para aliviar minha alma. Não sei quantos votos a sra. Dilma perderá por conta do meu discurso, mas certamente já não contará com o meu nem dos que estão mais próximos de mim. Meus textos literários agora, já não se fixarão no surrealismo, mas sim nas coisas inteiramente palpáveis, verdadeiras, inquestionáveis. Minhas missas de domingo já não se farão seguir do papo político-catequético sobre algo em que eu acreditava mas que era tudo mentira, e sim do relato puro, frio. Um trabalho de formiguinha que se estenderá pela Internet, onde todos os blogs, sites e fóruns de maior visibilidade haverão de contar com a minha presença mesmo que eu tenha de me desdobrar em inúmeros pseudônimos, quando as eleições se aproximarem e a propaganda política for permitida. Quero ter o prazer de ver muitos desses medíocres que hoje se resguardam em mandatos usurpados do povo simples ou que adentraram os gabinetes sem que nada produzissem de útil para a sociedade amargarem o mais absoluto ostracismo, todos de regresso à lama mais nojenta de onde verdadeiramente nunca sairam. Sentir-me-ei gratificado apenas em alertar aos jovens para que não desperdicem os melhores anos de suas vidas dando atenção a esses demagogos miseráveis. Sim, eu posso; nós podemos.
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