Os Enganadores da Política
Por Asolfo Lima (repeteco)
Meu avô, que era Mestre de Latim e petebista rocho, preparava até discurso para saudar os correligionários que estivessem no comando da situação e visitassem sua terra natal. Assim fez com relação a Getúlio e outros políticos de fama, ainda que não tivesse, ele próprio, se aventurado na disputa de qualquer vereança das muitas que lhe foram propostas, preferindo sempre a cátedra do ensino menor, em que preparou inúmeros meninos para os estudos na capital Fortaleza.
Quando ainda jovem marinheiro fui cassado pela ditadura e me encontrava na pior, em Brasília, um amigo indicou-me um engenheiro cearense, dono de próspera construtora, que poderia me arranjar algum trabalho. Chegando lá, o referido senhor não apenas me deu o emprego de apontador de obras, como ainda mandou que um seu funcionário me levasse de carro até a avenida W3. Ficara sabendo que eu era neto daquele que lhe ensinara os rudimentos da gramática escrevendo em sacos do cimento que construía os primeiros açudes do Ceará.
Meu avô era assim, aquele homem vocacionado para as coisas relacionadas ao preparo intelectual dos indivíduos, porém completamente despido das ambições de ordem política ou pecuniária. Morreu pobre, abraçado aos livros e conservando no armário de cedro o velho terno de casimira azul-marinho com que se paramentava toda vez que ia votar, e com o qual removeu a terra santa que o abrigaria na morada final. Nunca deixou de exercitar sua cidadania. Votava, ainda que já quase vencido pelo tempo, a lei o desobrigasse dessa tarefa. "Não podemos nos omitir nas decisões que dizem respeito à pátria" - costumava dizer, com ar professoral, como se referisse trecho de alguma aula distante. Lembro que em 1971, com 87 anos de idade, no fundo de uma rede, já naquela fase inteiramente filosófica, ao lhe indagar se ele sabia o nome daquele que controlava o país naquele momento dramático da nossa história, respondeu-me prontamente com outra pergunta: "Não é o Garrafazul?!".
Ele compreendia que estávamos enfrentando uma ditadura braba, e apenas se benzia quando eu lhe narrava os fatos menos graves do cotidiano. "Santa Virgem!" - proferia, olhos esbugalhados de quem já não enxergava o mundo, mas sentindo na alma tudo aquilo que nos afligia. Perguntava-me sobre Virgílio Távora e Parsifal Barroso. Vovô era petebista roxo, porém não omitia as qualidades do coronel udenista. "Virgílio é um homem preparado e bom. O que estraga são aqueles que o acompanham". Não sei a quem, especificamente, se referia, mas hoje, observando muitos desses que ainda tentam sobreviver no mundo da política, seja por conchavos outros ou porque tenham herdado o bastão de algum medíocre que por ventura tenha prosperado à sombra do Sr. Virgílio, entendo melhor o que meu avô queria dizer.
Na política há os verdadeiramente vocacionados e os meros aproveitadores, aqueles que por uma circunstância qualquer foram guindados aos altos postos. Eram apenas fracassados na iniciativa privada, ou simples profissionais do direito, da medicina ou do comércio nas cidadezinhas interiornas, mas que, de repente, por gravitarem em torno dos grandes homens, adquiriram a visibilidade suficiente para enganar os nossos irmãos menos atentos aos maquiavelismos e se elegerem até a governador de Estado.
Mas deixa está... Na políitica, assim como na literatura, somente os grandes serão festejados através dos tempos. Os sinulacros, ainda que acumulem fortunas e se lhe ergam bustos em praça pública, esses apenas morrerão duas vezes.
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