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19.10.09

Enfoque Sombrio

Rio de Todos Nós, Menos da Globo
Por Astolfo Lima

O Rio de Janeiro era, talvez,  a cidade mais cortejada pelos brasileiros, dentre todas que compõem a nossa federação. Quem de nós, residentes em outros lugares, já não desejou em algum momento habitar essa terra fartamente decantada em prosa e versos? Sentir de perto toda a magia daquele Cristo Majestoso, braços abertos em acolhida aos navegantes das mais diferentes plagas? Difícil encontrar um patrício que já não tenha sonhado com o Rio das Escolas de Samba, do mestre Pixinguinha e Cartola, de Tom Jobim e Vinícius de Morais, ou se imaginado, por um momento que  fosse, percorrendo a velha Lapa de arcos colossiais ou ovacionando seu time nas arquibancadas do Maraca numa memorável tarde de Fla X Flu. Lembro que, em menino, me sentia caminhando pela Rio Branco que vira num filme da Atlântida, descendo em direção à Candelária ou contornando à ersquerda até desbocar de alguma forma na Central do Brasil, para ganhar a Zona Norte, de trem, ou seguir no pé dois até o velho Mangue da Presidente Vargas. Percusso que haveria eu de fazer tantas vezes, na real, quando já em serviço na briosa Armada brasileira. Rio das artes contemporâneas e mais remotas, do imponente Teatro da Cinelândia, de todos os astros e estrelas da antiga Rádio Nacional que não conheci mas sabia. Rio da Copacabana magistralmente enaltecida pelo baiano Dorival Caymmi ou o paraense Billy Blanco, da Ipanema, Leblom e do histórico Arsenal de Marinha a descortinar para o jovem marujo toda a suntuosidade da baía de Guanabara, descendo eu a Marechal Deodoro à tardinha, pegando a praça Mauá, subindo depois para o chopp derradeiro lá na Praça XV. Rio da fantástica cantareira de Niterói ou desguiando no rumo de Paquetá, de todos os meus amores passageiros porém infinitos como aquele do personagem da "Noite de Almirante" do genial bruxo do Cosme Velho. Difícil, meus amigos, encontrar um que, arribado do norte (como esse que vos fala) ou vindo dos States,  logo não se perdesse de paixão ao deparar aquele verdadeiro berço explêndido; ora se! Esse Rio que, pela ótica da TV, não existe mais.
Que a violência campeia no mundo, e logicamente no Rio ou em qualquer outra metrópole do planeta, originada pelo crime transnacional - como tão bem se expressou  o nosso lúcido Ministro da Justiça, isso não podemos ignorar de forma nenhuma. Só não acho razoável que se induza  o povão menos esclarecido a imaginar que o grau de violência existente no Rio de Janeiro seja .o maior da face da terra. E as coisas boas de lá, onde estão? Acabaram-se? O Rio seria realmente apenas esse submundo que a TV escancara em toda sua programação, com imagens chocantes, inclusive nos seus takes de bricolagens? Por que incentivar com palavras ou induzir com imagens que outras nações que também lidam ou já lidaram com a violência em larga escala achincalhem o Rio de Janeiro e a todos nós brasileiros no momento em que a cidade é escolhida como sede das Olimpíadas e o Presidente Lula reconhecido internacionalemnte como uma das maiores lideranças? Ora, se é para expor um cancro na TV, já que isso rende audiência e outras coisas mais, por que não uma série de reportagens sobre a violência  no mundo, algo que ensejasse  pelo menos uma grande discussão no sentido de encontrar soluções? Chicago, por exemplo, já foi infinitamente mais violenta que o Rio de Janeiro, sem que isso tivesse abalado a credibilidade norte-americana. Pelo contrário: lá a Lei prevaleceu e hoje eles até se sentem muito à vontade para entenderem como algo corriqueiro e negligenciado por nossas autoridades um lamentável episódio tristemente localizado, justo na cidade que sediaará as olimpíadas, já que foi dessa forma que lhes fizeram ver o fato os noticiaristas daqui.
Não tenho procuração para defender o Rio de Janeiro, tampouco desconheço o valor da verdadeira imprensa que divulga com sobriedade e senso crítico todos os acontecimentos que dizem respeito à sociedade. Não pode é um órgão de comunicação fixar-se no enfoque meramente degradante, com matiz partidário num assunto tão sério como esse. Aliás, para ser justo com a campeã de audiência em todos os horários, a Rede Globo tem sido sempre bastante coerente  quando se trata de algo contrário ao Governo Lula ou aos que a ele estão  politicamente vinculados. Vejam: quando o papo é sobre Economia, por exemplo, essa remissora chama logo  o Sr, Maílson da Nóbrega para a "análise técnica", o ex-porta-voz -linha-dura militar Alexandre Garcia para os comentários intimidativos, e a gestualidade raivosa do Jabour para externar sua permanente ojeriza a esse Governo. Assim é zombar de nós todos.
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