Ranço Secular Que se Arrasta de Pai para Filho
Por Astolfo Lima
Em 1994, lá no Rio Grande do Sul, um mal-intencionado da arbitragem (para não usar o adjetivo que caberia melhor na presente locução) garfou vergonhosamente o Ceará Sporting Club, tomando-nos um título que já era certo e favorecendo o time de lá, e tudo ficou por isso mesmo. No presente ano, outro mal elemento do apito repete o logro, nos esbulhando desta feita aqui dentro de nossa própria casa, de forma ainda mais acintosa e covarde, transmitida inclusive para todo o país via TV, e novamente deu em nada, já que eles não aceitam que estejamos, como da outra vez, com a mão na taça, enquanto meia dúzia de timecos daquela região se debate para largar a lanterna do campeonato, e um Vasco de tantas glórias passadas, agora capernga, se desespera para voltar à tona.
Os sulistas, na sua quase totalidade, zombam de nós nordestinos em qualquer circunstância, e não apenas no futebol, com anuência de arrogantes famílias que controlam essa sofrida região desde o Império. Toscos e endinheirados elementos que pagam verdadeira fortuna até para se despirem do sotaque de que sentem vergonha, quando instalados no sul a que ainda julgam maravilha ou em giro pelos states. Essa elite hipócrita e mercenária que nos governa ao longo dos séculos e que por aqui erguia e ainda ergue feudos fantásticos, consolidava e ainda consolida fortunas descomunais, mas preparando sempre os seus descedentes nos padrões mercantilistas do sul, que era (é) para os meninos retornarem ao torrão natal já devidamente preparados para assumirem o latifúndio, substituirem no comando da situação os coronelões já carcomidos pelo tempo. Gente, portanto, despida de qualquer vínculo com esse massacrado solo, e que por isso mesmo alimenta esse sórdido preconceito dos de lá para com os irmãos dessa injustiçada banda de cá do país. Um ranço que, por parte desses preconceituosos sulistas, já se arrasta desde quando o Rio de Janeiro era o centro propagador da cultura nacional e São Paulo não mais que uma fazendona de café que pouco a pouco se transformava em metrópole pela força da mão de obra nordestina. Todos para lá acorrendo, inclusive os nossos intelectuais, que muito contribuiriam para a formação cultural deste país, a exemplo de José de Alencar, Capistrano de Abreu, Clovis Bevilaqua, Ruy Barbosa, Castro Alves, os naturalistas maranhenses, os folcloristas pernambucanos, os romancistas e poetas alagoanos ou paraibanos; doutores da ciência e do humanismo, das artes, da filosofia, todos a se destacarem na música, na pintura, na literatura e também no futebol e demais setores produtivos do chamado eixo sul, desse tão decantado oasis da civilização brasileira, mas sem que deixassem jamais de ser discriminados pelos cafajestes de ambos os lados.
No nordeste a coisa tem sido de tal modo terrível para seus leais rebentos, que, vez por outra, ainda desaba por aqui um boçal engravatado, ar esnobe, sem nenhuma intimidade com a nossa região, mas que imediatamente despontará na mídia pendurado a um sobrenome secular, logo se elegendo aos altos cargos. Uma praga a abarcar todos os postos estratégicos da administração pública, não para trabalhar pelo povo, mas tão somente para estender os seus tentáculos de dominação e escárnio para com os verdadeiros donos do pedaço.
E, como se não bastasse, eles tentam agora nos usurpar até mesmo aquilo que imaginávamos ser um livre direito de qualquer cidadão, sulista ou nordestino, qual seja: praticar um bom futebol e sonhar com o título de campeão.
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