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26.10.09

Digitando Textos na Velha Remington

Desabafo de um escriba não midiático
Astolfo Lima
Os poucos visitantes deste blog, sobretudo os que residem em Fortaleza e me conhecem pessoalmente, talvez não entendam o motivo que me leva a ficar o dia todo falando ao vento através das várias páginas que construi no mundo virtual. Em primeiro lugar, devo deixar bem claro que não foi o fútil desejo de aparecer ou qualquer outro interesse de ordem pecuniária, vez que as propagandas aqui exibidas há quase três anos nada me renderam ou haverão de render, pois isso só ocorre nos sites com milhares de visitas/dia - um milagre ao alcance apenas dos craques da comunicação internética, dos ágeis manipuladores de softwares, dos propagadores de ferramentas ou futilidades, que são exatamente os preferidos pelos motores de buscas (esses verdadeiros controladores daquilo que deve ou não ter visibilidade no mundo virtual).
Quis fugir da literatura. Sim, de algo que estava me absorvendo por completo, sem nenhum retorno. Coisa de louco. Aquele lance de você desenvolver um conto em poucas horas e depois passar quatro ou cinco meses a lapidá-lo, para depois submetê-lo a um concursinho literário caça-níquel e ter o desgosto de vê-lo sucumbir diante de um texto medíocre. Certo que ganhei alguns "prêmios" literários, recebi várias menções honrosas; nada, porém, que fosse suficiente para arrancar do armário os meus originais. Estão todos, ou quase todos espalhados por lugares da casa que não lembro mais. Dezenas de diskets que já não funcionam, inúmeros cds desatualizados e uma montanha de papel A4 amarelecida e desorganizada, que penso seriamente em desviar para a reciclagem. Intato, apenas um par de livros já publicados. Literalmente falando, já que as duas edições circularam tão somente no âmbito familiar. Um livro de contos e um romance. Mortos. Irremediavelmente mortos.
Não havia, pois, nenhuma outra forma de dar vazão ao meu compulsivo desejo de escrever, que não fosse construir blogs e espalhá-los pelo mundo virtual. Testar a penetrabilidade (terrmo proposital)de cada um. Fazer e desfazer. Nova decepção, dado que todas as páginas construídas, por focalizarem sempre alguma coisa relacionada às artes, estavam apenas entulhando no gigantesco arquivo-morto da Internet. Ora, só bem mais tarde eu viria a compreender que os milhões de sites que aparecem em sua tela quando você digita um termo qualquer (literatura, por exemplo) nos motores de busca, não significa dizer que aquele astronômico número que lhe é sugerido, se refira a milhões de pessoas interessadas em literatura, ou artes de um modo geral. Nada! A grande maioria dos portais em tela, sequer teve uma mísera frase digitada por alguém da vida real. Tudo fruto de robots alojados na Grande Rede pelos tais craques do software a que me referi. Todos querendo apenas vender alguma coisa, e nenhum interessado em te dizer quem foi Kafka. São os apropriadores da obra alheia agora se dissiminando pelo mundo virtual, transformando os grandes clássicos do domínio público em ebooks que serão vendidos nos sites monumentais que despontam em todas as pesquisas. A mão descomunal dos donos da Internet, versus mão grande dos editores mercantilistas do livro de papel, pelo controle absoluto desse precioso acervo da humanidade.  A guerra, agora, pra valer, será entre eles.
Para os senhores terem ideia do descaso para com os construtores da história real contemporânea, dessa coisa absurda que leva ao inaceitável controle sobre o que deve ou não aparecer nas consultas da grande rede, os blogs agora são munidos de minúscula ferramenta programada para criar palavras-chaves na medida em que o sujeito digita um texto. Este que estou escrevendo agora, por exemplo, ainda não gerou nenhuma. Como pode, se com a metade disso, qualquer assunto que tivesse sido veiculado pela Wikipédia ou pelo Yahoo logo teria gerado mais links que as próprias palavras contidas no artigo?! A meu ver, algo está errado e precisa urgentemente ser corrigido por querm de direito. Ou não existe democracia no mundo virtual?
A coisa é tão séria, que passei meia dúzia de meses escaneando um velho livro de meu acervo particular, com mais de sessenta anos de uso, tendo que digitar centenas de verbetes, tudo para construir um blog de utilidade para quem lida com a escrita, que é um dicionário de idéias afins. Pois muito bem: coloquei o blog no ar, e durante um ano o bicho permaneceu ignorado pelos motores de buscas e tive que deletá-lo. De outra feita, resolvi escanear dois livros franceses de 1850 (obras raras), com gravuras de alguns gênios da pintura e da escultura, inclusive traduzindo o breve texto para cada imagem, e novamente tive que tirar do ar, por falta de visitantes. Mais recentemente, construí um blog com os 100 maiores poemas do séculoXX, tendo o enorme trabalho de vasculhar a obra e os dados pessoais de cada poeta, tudo no sentido de facilitar a pesquisa dos interessados por poesia, já que toda vez que eu buscava um poema de determinado artista digitando a palavra-chave "100 poemas do seculo" ou "os maiores poemas do seculo XX", apareciam apenas algumas páginas mostrando não mais que os títulos. Ou seja: todo mundo havia copiado somente a relação de títulos, pouco se importando de expor para o pesquisador o texto que estava sendo buscado. Esse blog está arquejando, juntamente com outro em que reuni os mil maiores hits do século XX, seguindo indicações da crítica especializada e também o meu gosto pessoal, já que em pelo menos trezentos hits digitei a minha opinião. Esse, infelizmente, também não gerou um único link nos motores de busca e está morrendo. E vejam que são blogs bem funcionais, usando as melhores ferramentas, em que exponho na home  todos os links levando diretamente ao que interessa, sem mentiras ou subterfúgios, do modo como eu gostaria de encontrar nas páginas que pesquiso. Exemplo: se busco Neil Young, clico lá e caio na página com o player do artista, sem que eu precise catar um hit aqui, outro ali, perdendo o maior tempo. De quebra, ainda a biografia do cara e vários links a ele relacionados. Se procuro Rainer Maria Rilke, clico lá e deparo imediatamente com os seus magistrais poemas. Página quase morta. E como essas, foram várias outras que nasceram e morreram sem que tivessem sido capturadas pelos motores de buscas. Sobre o meu querido Ceará, havia criado um blog com mais de mil arquivos importantíssimos sobre a nossa história, que da mesma forma passou em branco, e que, de pura teimosia, estou tentando restaurar nesse instante, apenas por respeito e consideração ao ilustre e saudoso escritor Eduardo Campos, o homem que, antes de partir na grande viagem, deu vida ao nosso Instituto do Ceará, informatizando o precioso acervo da casa do Barão de Studart. Ele quem me presenteou os preciosos CDs com todas as revistas desse verdadeiro estuário da nossa cultura.
Bom, tem sido essa a angustiante trajetória de um escritor não midiático no mundo virtual. Pelo que sinto, provavelmente retornarei muito em breve ao modelo antigo. Quem sabe, digitando meus textos na velha remington e produzindo livros que jamais serão publicados.
Em tempo:
No dia 19 do mês em curso publiquei aqui neste blog uma matéria denominada Enfoque Sombrio - Rio de Todos Nós, Menos da Globo, em que externava o meu repúdio pela forma como determinados setores da mídia cobriam o noticiário policial no Rio de Janeiro, passando para o mundo uma imagem terrível dessa cidade, enquanto não faziam o mesmo com relação a outros lugares não menos violentos. Mais que um artigo, escrevi uma crônica de amor à cidade que habitei na minha primeira juventude e que via, agora, ser massacrada tanto pela bandidagem como, sobretudo, pela alta mídia concessionária do poder público. Pois muito bem, esse artigo, como inúmeros outros que aqui tenho postado, passou em branco, porque, afinal, não sou um midiático nem possuo cacife para ter minhas matérias aceitas pelo Google News, como tantas que esse gigantesco portal exibe diariamente de outros blogs não muito melhores que os meus; inclusive as enviando para mim a toda hora.
Coincidência ou não, abrindo hoje a página Interatividade, no site da TV Brasil, dou de cara com a seguinte chamada para o "Observatório da Imprensa" que será apresentado nesta terça, às 23h:

Violência e Mídia no Brasil

Notícias sobre atos criminosos de narcotraficantes que desafiam o poder das autoridades tem lugar cativo na primeiras páginas dos jornais e na escalada dos principais telejornais brasileiros, certo? Depende... Depende do jornal e depende da notícia. Em muitos casos, é mais tentador mostrar a grama podre do jardim do vizinho do que expor as ervas daninhas que atacam seu próprio quintal.
Um exemplo claro desta situação aconteceu nos últimos dias nos dois maiores centros urbanos do país. No Rio, um helicóptero da polícia caiu após ser alvejado por traficantes, notícia esta que ganhou espaço privilegiado no jornalismo nacional e internacional. Em compensação, um assalto cinematográfico numa estrada de São Paulo, com ação típica de comandos militares foi muito pouco noticiada até mesmo na capital paulista.
Os assaltantes usaram fuzis e até uma metralhadora anti-aérea para perfurar a blindagem do carro forte. Levaram um milhão de reais e feriram os quatro vigilantes. Será que se esse assalto tivesse ocorrido no Rio a repercussão teria sido a mesma? Há pesos e medidas diferentes quando o assunto é violência urbana, e é este o tema do Observatório da Imprensa.
Com as presenças de: Walter Maierovitch, do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone; Jorge Antonio Barros, Editor de Cidade do O Globo; Antonio Carlos Biscaia, Deputado Federal PT/RJ; e Antonio Rangel Bandeira, Sociólogo.
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Meus textos mais recentes:
Pagodeiros, Lambanças e Outros Trecos
Cabra da Peste Prejudica Time do Ceará
Enfoque Sombrio
Discriminação Contra Nordestinos
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