Loading

3.10.09

Sacada Comercial é Isso

Editores Mercantilistas e Seus Fiéis Escudeiros
Astolfo Lima

Os dez romances mais importantes do século XX, de acordo com a crítica de cabresto e seus editores aloprados, e o que penso de cada um

1 - ULISSES.

Obra que vem gerando inúteis discussões ao longo do tempo (como, aliás, previra o seu autor), esse livro não poderia, portanto, deixar de ser o primeirão em uma lista dos "100 maiores romances do século XX" elaborada por editores mercantilistas ávidos por desovarem seus amplos estoques de obras em domínio público, com auxílio bem remunerado - lógico - da denominada crítica de resultados, aqui na terra Brasilis.

Evidente que James Joyce foi o cara por um tempo e causaria grande estardlhaço com um livro que de revolucionário mesmo tinha muito pouco, já que uma leitura chatíssima toda vida que ficaria restrita à meia dúzia de desocupados das letras. A "grandiosidade" do livro está, justamente, em toda essa polêmica que geraria inclusive rumorosos debates academicistas de criaturas que sequer o leram na sua totalidade, mas que tinham e têm sempre pronto um comentário favorável ou não a respeito da obra.

Como leitura de entretenimento, o livro é totalmente desaconselhável aos que estão se iniciando nas letras e buscam obras de referência. A esses, recomendaria de James Joyce tão somente Os Dublinenses.

2 - EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Obra de Marcel Proust, em sete volumes, onde o autor, desdobrado em vários personagens não ficcionais, traça todo um panorama da sociedade francesa na transição do século XIX para o XX, concedendo grande relevo a si próprio - claro-, já que presenciara ele, de corpo presente, todos os principais fatos relacionados ao tempo que nos desvenda com os seus relatos. A coleção, ainda que constituída por volumes autônomos ("O Caminho de Swann", "À Sombra das Raparigas em Flor", "O Caminho de Guermantes", "Sodoma e Gomorra", "A Prisioneira", "A Fugitiva" e "O Tempo Redescoberto"), forma uma obra uníssona e requer leitura completa, para que se possa ter um painel mais verdadeiro de uma época que influenciou fortemente a cultura de outros países, sobretudo do nosso, cujos autores mais expressivos viviam de copiar francesees e portugueses.

Uma curiosidade sobre essa obra foi o fato de ter sido recusada por vários editores (ah, praga!), que sequer a analisavam, achando que não passava de mera vaidade de um janota querendo despontar no mundo da literatura. Recomendável.

3 - GRANDE SERTÃO: VERREDAS

É essa, talvez, a trama mais festejada de toda a literatura moderna brasileira, juntamente com Macunaíma, de Mário de Andrade - para mim uma obra apenas engraçada. O mérito maior do Dr. Guimarães Rosa está exatamente na meticulosidade com que empreendia suas pesquisas linguísticas, através do agreste mineiro, colhendo de viva voz os causos mais escabrosos ou delirantes, aos quais concedia pinceladas pós-pós, num árduo esforço de desbancar o melhor regionalismo que se praticava por aqui até então, com Graciliano Ramos, acrescentando a seus apontamentos uma sofisticação a meu ver desnecessária, porém muito festejada no mundo acadêmico. Na trama, um jagunço narra para um interlocutor as suas façanhas de guerreiro e o seu seu amor por outro jagunço, que na verdade é uma mulher disfarçada de homem para vingar o pai morto... Fico a imaginar como se sentiria um autêntico caboclo nordestino - desses que não levam desaforo para casa - fingindo-se de donzela para poder torcer o pescoço de um desafeto...

Não é meu estilo favorito de leitura, mas o recomendaria, pela grandiosidade de Guimarães em outras narrativas.

4 - O Processo

Obra genial de Franz Kafka, que insere pela primeira vez na literatura um elemento aparentemente inóquo (se bem que essencial ao bom funcionamento do aparelho estatal) como figura meramente castradora, surrealista e letal ao indivíduo comum, desvendando assim uma nova e rica vertente na nomenclatura literária universal. Em O Processo, a angústia do sujeito diante de uma situação provavelmente cavada por ele mesmo junto a uma entidade que sequer sabe da sua existência enquanto cidadão inserido na sociedade por ela mantida sob rigorroso controle. Ou seja: um organismo legalmente constituído e com o qual, aparentemente, esse camarada não possuiria vínculo ou a ele deveria qualquer coisa, mas que, ainda assim, teimará na tentativa de querer destitui-lo de sua função primordial, até que sucumba a esse suposto monstro que ele próprio esculpiu. O livro é isso. O mais não passa de estéril especulação academicista.

Altamente recomendável.

5 - DR. FAUSTO

O alemão Thomas Mann, filho de uma brasileira, foi contemplado com o Nobel em 1929, sem que isso fizesse Otto Maria Carpeaux mudar de idéia com relação à sua obra: "Mann é o maior escritor dentre os escritores menores” - dizia o afamado comentarista literário, enquanto seu colega Harold Bloom, um pouco mais comedido, afirmava apenas ser a obra de Mann totalmente datada, o que, na certa, o levaria ao esquecimento num curto espaço de tempo. É o tal negócio: em cada cabeça, uma sentença, embora eu também não catalogue o autor no rol das grandes sumidades literárias ou diga que o estilo do artista seja atraente. Dr. Fausto trata da biografia imaginária do compositor alemão Adrian Leverkühn, escrita pelo amigo Serenus Zeitblom durante a Segunda Guerra. Nela, o autor, para recontar o pacto de Fausto com o diabo, se vale de lances da vida de Nietzsche e das teorias de Shoenberg e do filósofo Adorno. Um grude refinado, não ao meu gosto. Portanto, não recomendo.

6 - O Homem Sem Qualidade

O Homem sem Qualidades, de Robert Musil, foi escolhido por uma seletíssima comissão alemã (constituída por autores renomados, críticos sérios e importantes germanistas) como o melhor romance alemão do século XX, deixando para trás obras como O processo, de Kafka; A Montanha Mágica e Doutor Fauto, de Thomas Mann, e outras menos famosas entre nós. Ou seja: não há credencial maior para o livro, portanto não seria eu, simples observador do cotidiano literário tupiniquim, quem iria tentar desbancá-lo.

A narrativa se desenvolve por uma Austria imperial e sua burguesia sem rumo, inútil em muitos aspectos,onde Musil, com forte dose de sátira e humor, erguerá seu fantástico painel sobre um mundo em decadência e o que estaria por vir com relação ao continente europeu.

Recomendável, claro!

7 - O SOM E A FÚRIA

Em O Som e a Fúria, William Faulkner percorre com tenacidade a decadência de uma família norte-americana, usando para tal quatro narrativas distintas, pelas vozes de idêntico número de personagens que evoluem pelo mesmo cenário, vivenciam igual drama, porém cada um com a sua própria noção de tempo, espaço e ponto de vista com relação ao fato, num malabarismo estético/literário verdadeiramente revolucionário para a época (1929), quando prosperava a hostilidade racista no sul dos states. Tecnicamente, seria uma obra quase perfeita, com todos os seus fluxos/refluxos psicológicos e anti-pedagógicos e demais elementos Joyceanos.

Livro altamente recomendável para futuros professores de letras e estagiários de suplementos dominicais dos jornalões.

8 - A MONTANHA MÁGICA

O próprio Mann, em alguns momentos, deu a entender que A Montanha Mágica seria um livro meio confuso, requerendo, assim, a dupla leitura para um melhor entendimento da obra, embora aliviasse logo em seguida dizendo que a arte não deve ser encarada como mera tarefa escolar, tampouco um extenuante exercício de mente; que deveria, acima de tudo, propiciar prazer. Xiiii!! Como vemos, o renomado escriba tentou justificar sua obra, naquilo que Flaubert considerava imperdoável a um artista que se presasse. Em outras palavras: o livro ou é bom ou ruim. Não há meio termo. Esse, portanto, não é recomendável para quem busca uma leitura amena, de puro entretenimento. Transcorre num ambiente tenso, de guerra não apenas convencional quanto psicológica, e é repleto de discussões estéreis que passam pela política e seguem na contra-mão da filosofia e outras divagações intelectualizadas totalmente desnecessárias.

9 - O CASTELO

Obra inconclusa de Kafka, ainda assim O Castelo mantém a mesma densidade psicológica que permeia as demais narrativas desse autor genial. Em mãos menos hábeis, a composição seria não mais que o simples relato de um tema já bastante explorado não apenas pela literatura mais tradicional como, sobretudo, pelo teatro e cinema: aquele lance do déspota que reina sob leis arbitrárias, e de um povo embrutecido que a esse se submete, indiferente à própria força. Conflitos, angústias, buscas e desencontros, como, aliás, também se processava na vida real de Franz Kafka.

Obra não fundamental, porém obrigatória se você tenciona enveredar pelos labirintos da escrita.

10 - FINNEGANS WAKE

Finnegans Wake é uma obra pouco lida completamente, não tanto pela complexidade de sua estrutura, como, sobretudo, pelo extenuante experimentalismo linguístico que a envolve, os simbolismos em excesso e as tiradas mitológicas pouco ou nada esclarecedoras, o que espanta logo de cara todo aquele que tenta desvendá-la de um só fôlego. Verdadeiro nó cego, não aconselhável, portanto, ao cristão comum. Pelo fato de todo esse desvario ter vindo à tona em Dublin - terra de James Joyce - suspeita-se que o efluxo se refere a frases soltas, gritos de ébrios e prostitutas, colhidos pelo próprio autor nas suas muitas andanças pela zona meretrícia da referida cidade, e depois brochados em papel-jornal, simplesmente para gozar com a cara daquele leitorzinho metido a besta. O tipo de livro para ser sempre comentado e nunca lido

Reblog this post [with Zemanta]

0 Comente!:

Postar um comentário

Sinta-se à vontade para comentar!
Importante: os comentários aqui inseridos são de inteira responsabilidade de quem os formula e são passíveis de sanções legais caso fujam à ética ou violem direitos alheios.