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3.10.09

Alma - Jáder de Carvalho

O Poeta Era Assim

Astolfo Lima

Controverso, desassombrado, culto, poeta ao nível de um João Cabral, romancista sem o viés açucarado que prosperava entre os de sua geração, Jáder de Carvalho foi, realmente, um dos maiores de seu tempo, e continua figura de proa da nossa literatura, muito embora os já carcomidos desafetos de outrora ou  mesmo os sseus prepostos sempre acastelados nas franquias do Estado teimem em dizer o contrário. Conheci-o, para honra minha, ele já no estro de sua fase poético-filosófica: setentão, enfiado num pijama, confortavelmente descalço a percorrer estantes do seu sobradinho da Agapito do Santos. Falava-me de fatos pitorescos, extra-literatura, e discorria sobre os hipócritas da província, os falsos poetas e mandatários que haviam adquirido fama ou fortuna de modo fraudulento e que arrotavam dignidade nas rodinhas mundanas... Ah, que pena não ter anotado as minúncias, com que, certamente, enriqueceria muito meus livros ainda em preparo. De todo modo, absorvi bastante nas inúmeras tardes em que adentrei sua residência, para, a pretexto de conversar sobre literatura, eu tentava mesmo era dividir a  solidão daquele ilustre homem das Letras, ali tão só. Causava-me estranhesza que jamais tivesse encontrado por lá uma "vivalma", das tantas que  avistei depois a "festejá-lo",  quando já era ele apenas uma saudade no coração daqueles que verdadeiramente o  reverenciaram em vida.
Bom, nem sei porque estendi-me tanto para apresentar um soneto do mestre, que é o mais importante neste momento. Acho que foi pelo fato de uma visitante deste blog ter deixado mensagem reclamando porque eu não teria colocado na págiina a biografia de Jáder de Carvalho. Ora, vejam os senhores! Ela, provavelmente, não se deteve mais que um minuto e meio na sua busca. Se tivesse observado melhor, na certa teria deparado oito ou dez textos em que faço algumas apreciações sobre o poeta. Mas, deixemos para lá. Essa pessoa, contudo (embora sem querer), agiu como tantas que simplesmente esqueceram  de prestigiar o poeta quando ele não era apenas a energia de agora e sim um ser humano como outro qualquer, que necessitava  inclusive de um mísero afeto familiar... 

ALMA

Jáder de Carvalho

Alma de viajar, de mil viagens,
sigo, num sonho, naves andarilhas,
que se enfumam nas líricas paragens
de angras azuis e solitárias ilhas.

São-me errantes e tristes as imagens:
à lembrança das velas e das quilhas,
formam golfos e idílicas paisagens
e enchem-me os olhos de asas e de milhas.

Asas - quem sabe? - para as minhas ânsias;
milhas, para eu sentir o inalcançado,
no meu roteiro feito de distâncias,

mas onde eu canto sob um céu mirífico
e sonho um porto virgem, mergulhado
numa doçura de ilha do Pacífico.

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Obs.Os dados a seguir estão contidos na antologia de Hugo Victor, publicada em 1938. Não formam, portanto, a atual biografia de Jáder de Carvalho; bem mais rica, evidentemente.

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Jáder de Carvalho. Nasceu na serra do Estevam (Quixadá), a 29 de dezcmbro de 1901.
Fez o curso secundário no Ateneu Quixadaense e no Liceu Cearense, formando-se em Direito pela Faculdade do Ceará. em 1931. Professor de Sociologia do Liceu (aposentado). Ex-diretor do Departamento de Estatística do Estado.
Poeta, romancista, novelista, crítico.
Fundou em Fortaleza o jornal A Esquerda, e dirigiu A Razão (fundado por Monte Arrais), e O Combate (934).
BIBLIOGRAFIA
O PROBLEMA DEMOGRÁFICO (sociologia), 1930, Fort., Tip. Jataí; O ÍNDIO BRASILEIRO (sociologia), 1930, Fort. Tip. Jataí; POVO SEM TERRA (interpretação do fenômeno judeu, sociologia), 1935, ed. de Flores & Mano, Rio; CLASSE MÉDIA (romance social), 1937, Edições Reunidas, Recife; DOUTOR GERALDO (romance social, 1937, Edésio Editor, Fortaleza. EU QUERO O SOL (romance social, BOÊMIOS (romance), FAZENDA SÃO JORGE (romance saciaD, RETRATO DO NORDESTE (sociologia, em três volumes).
CRÍTICA E REFERÊNCIAS
Mário de Andrade (do Norte), em Dom Casmurro, 5/8/37; de Tristão de Ataíde, Agripino Grieco, Joel Silveira, Eloi Pontes, Graciliano Ramos, Carlos Chiacchio, Almir de Andrade, e nas revistas Pan e Caras y Caretas, de Buenos Aires, além de vários jornais e revistas brasileiras.
Figura na coletânea Os Novos do Ceará no Prhneiro Centenário da Independência do Brasil, organizada por Aldo Prado.
Ocupa a Cadeira nº 15, da Academia Cearense de Letras, da qual é patrono João Brígido.

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