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O FHANTOS, DE LOPES FILHO

PHANTOS, UM LIVRO QUE FEZ BARULHO

Murilo Mota

(Publicado na revista VALOR, de 1939, e escaneado conforme ortografia da época)


No ano de. 1893 apareceu em Fortaleza, com uma carta-prefácio de Antonio Sales (mestre Sales tem sido o mais copioso prefaciador de nossa historia literaia), um livro de versos denominado "Phantos". No flontespicio o volume figurava o nome de Lopes Filho, que era por batismo João Lopes de Abreu Lage e que, no quadro de socios da "Padaria Espiritual", aparecia com o nome de guerra de Anatolio Gerval.
O "Pllantos" foi o segundo livro editado pela rumorosa sociedade, (O primeiro foi "Versos Diversos", de Antonio Sales) dentro do seu programa de trabalho e divulgação que tanto relevo deu ás fronteiras de nossa terra no mapa literario do Brasil dos ultimos anos do seculo passado. Tratava-se de uma modesta brochura, contendo 68 paginas de texto, e que pelas livrarias Gualter e Oliveira era vendido ao preço de 2$000, a mesma camarada quantia pela qual se entregava aos consumidores lítelarios da ribeira os "Contos do Ceará" de Eduardo Saboia, igualmente e pouco tempo depois editado pela "Padaria Espiritual".
Mas, este livro que assim se apresentava tão franzino, tão pifio de folhas, estava destinado a levantar inesperada celeuma em quasi todo o paiz. Não, propriamente, que ele se apresentasse como uma flamula onde panejassem invulgares predicamentos de arte poetica. A celeuma se deveu a que, nesse rebento bibliografico da "Padaria", esposasse Lopes Filho os canones da escola que Moréas classificou de Simbolismo. Isso foi o bastante para que logo no Pará, na Paraiba, em Pernambuco, na Baia e até no Rio, vozes se levantassem, às vezes com rumor de contenda, discutindo o livro através da nova disciplina que se voltava com ardor crescente contra o ritual parnasiano.
Pude, muito á vontade, examinar a barulheira despertada pelo "Phantos", no proprio espolio literario de Lopes Filho, que a familia do Poeta não faz muito poz á disposição de meu Pae, para estudos atinentes á "Padaria Espiritual". '
Pode-se dizer que foi este livro, pelo menos no norte do paiz, uma das primeiras manifestações, em volume, que teve o decadismo brasileiro, Aí sim, não é de extranhar que, assanhados os arrraiais parnasianos e estimulados os adeptos da nova ordem literaria, prós e contras cruzassem no paiz, e o "Phantos" lograsse uma repercussão que não era muito frequente em relação aos livros editados no Ceará.
No Panis, Eustaquio de Azevedo saiu-se pela imprensa, desancando sem dó o simbolismo e os versos de Lopes Fiiho. Guilherme de Miranda, aprestando-se para a detosa da escola e do poeta, rebateu:  "O nefelibatismo é poesia, o seu aparecimento na arte é uma revolução!"
Zangado, Eustaquio redarguiu - "Santa ignorancia!" -, e procurando levar o simbolismo no ridiculo, citou uns versos ehucros de Valetim Magalhães, publicados na "Semana", do Rio:
Guerra Junqueiro,
Guerra Junqueiro
Vate sublime!
Dentre os poetas
o mais guerreiro;
Guerra Junqueiro,
Guerra Junqueiro Vale sublime!
Ás invectivas de J. Eustaquio de Azevedo juntou-se, no Pará, Leopoldo Souza, que afirmou haver o simbolismo tornado o "Phantos" um "livro escabroso".
Da Paraiba, chegaram tambem acres censuras, e de Pernambuco, criticas mais amaveis ou tolerantes que propriamente elogios as assinadas por Clovis Bevilaqua e Ulisses Costa.
Na Baia é que a cousa esteve preta como no Pará. O "Diario de Noticias" citou os versos:
"Leva á cabeça encanecida,
Num caixãosinho, o filho morto."
Pai infeliz, ele. Aduzindo-Ihe os seguintes comentarios depreciativos:
"Achamos muito esquisito que um pai, por mais pobre que seja, leve o cadaver do filhinho na cabeça. Um enterramento muito sem cerimoonia. Mesmo que seja uso da terra, isto não deixo de ser até ridiculo."
Foram evidentemente infelizes, para não dizer grosseiras, as referencias feitas pelo jornal da bôa terra a estes versos em que se enuncia um costume existente entre os sertanejos do Nordeste, os quais, sem dinheiro para encomendar caixões dourado, conduzem á cabeça o cadavel ds: filhinhos, numa singela e enternecida homenagem paternal.
Mas, a indelicadeza do "Diario de Noticias" não ficou sem trôco merecido. Vivia pela epoca na Baia, cursando a Faculdade de Medicina, um rapaz cearense que, irritado com o sucedido, endereçou ao jornal uma carta veemente de que foram parte os seguintes periodos:
"Confessem que foram crueis, foram extremamente exagerados para um costume, triste, mas pitoresco e inocente, dos sertanejos da minha terra. E entretanto VS, estão acostumados com as praaxes, mais que ridiculas, absurdas, das festas e sambas celebrados aqui depois da missa do 7.0 ou 30.0 dia do falecimento de um individuo da classe baixa. Vocês estão habituados a ouvir as insuportaveis cantarolas com que, não raro, nos impacientam e caceteiam visinhos superticiosos. quando morre -lhes um parente, um conhecido".
Esse rapaz chamava-se Americo Barreira. e terminou medico notavel e ocúpando cargos de destaque na administração da Baía. Mas pela epoca da discussão, apenas exercia as funções, como ele próprio dizia, de «procurador liteeario» (padeiro honorario) da "Padaria Espiritual".
Pethion de Vilar foi que, a proposito do livlro de Lopes Filho, teve estes conceito exagerado do simbolismo: "O nefelibatismo não é, como muitos julgam, um simples caso teratologico na evolução estetica da arte e da literatura, nem tão pouco a inovação exotica de meia duzia de poseurs espanta-burguezes.
Não; o nefelíbatismo é uma reação necessaria e salvadora que se impõe ao espirito hodierno, como que a descerrllr-Ihe, depois das obcecações ignobeis do reaIismo desbragadamente analítico, o velarium azul do Belo e do Ideal, num doce contagio de poesia, de paz e de misticismo."
E depois de afirmar que o nefelibatismo era a «suprema aristocratisacão da arte» e de tecer  louvores á poesia contida no «Phantos», o poeta baiano que Rostand denominava de le génial poéte brésilien, conclamava as tribus da ordem nova para combater os velhos metodos esteticos:
"Guerra ás chapas artifialmente pnseuses e a orgIa pituresca do parnasianismo frio e calculadamente estetico, guerra ao choramingamento piégas do sentimentalismo esteril e banal I"
No Rio, afinal, o livro de Lopes Filho esteve tambem em fóco. Mas, infelizmente, lá, ninguem defendeu o poeta cearense das restrições que foram feitas a seus versos, e nenhum foliculario do decadismo apareceu para revidar aos ataques de Medeiros e Albuquerque e Artur Azevedo, que chamaram o simbolismo de «borracheira» e «patacoada». O "Album", folha literaria de Artur Azevedo, chegou mesmo a fazer um trocadilho com o nosso conterraneo, recomendando-lhe que, como padeiro passasse a fabricar "bons biscoutos superiores a estas bolacllinhas de agua e sal"...


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