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Luz e Sombra

Conto de ALimaS

Meus olhos fitos na direção da porta, vazios, deturpando objetos, imaginando coisas... Formas estranhas que por vezes ganham vida, movimentam-se... Um som que zune dentro do crânio, ferindo-me por dentro, dilacerando-me aos poucos... E aquele vulto ali posicionado. A sombra ofuscando a luz que penetrava livre pela porta. A silhueta de um assassino, por certo, sondando o ambiente, percebendo que não há mais ninguém na casa, exceto esse trapo de gente que sou e que nada representa de perigo para ele... Que estará acontecendo, meu Deus?! Qual a intenção deste indivíduo?

Pela postura, suponho que me observa de forma... de forma ameaçadora. É... Ameaçadora. Que mais poderia estar fazendo aqui? Aguarda apenas o momento mais adequado para me atacar. Sim, só pode ser isso. Ah, meu Deus! E Chagas, que não viu o intruso, onde se meteu esse relapso?

Se ao menos eu tivesse como me erguer dessa maldita cadeira, apoderar-me da tranca... Oh, meus olhos esbugalhados, estas mãos trêmulas, inúteis... E a voz presa na garganta, gritando para dentro... E Marta, onde está Marta? Maaartaaa!!! Não entendo... Agora há pouco Marta estava aqui. Onde está Marta? Que fizeram com Marta? Ela não me deixaria só... Ah, meu Deus...

Por qual razão este indivíduo não age de uma vez? Aproveita-se de minha fragilidade, preso a esta nefasta cadeira de rodas, e me poupa do sofrimento atroz, por quê? Se não tenho voz,  nem sinto o próprio  corpo, provavelmente também não sentirei dor... Gostaria que o sujeito acabasse com tudo de uma vez. Por que reluta? Por que fica aí apenas me espreitando, silencioso, indecifrável? Tenho medo. Muito medo.,,

Uma vontade incontrolável de gritar, gritar... Uma situação que eu resolveria facilmente se não estivesse... nulo. Ou que outros resolveriam por mim se não tivessem me abandonado... Não, não, Marta não me abandonaria. Que fizeram com Marta? Não aceito que lhe façam mal, compreende, você aí, parado? Ei, fale alguma coisa, rapaz! Olhe, você pode levar tudo desta casa, mas não faça nenhum mal a minha Marta, ouviu bem? Eu tenho dinheiro, sabe? Muito dinheiro... Você sobe o vão de escada e entra no primeiro quarto à direita... À direita, certo? Por trás do birô há um quadro enorme: uma marina, você identificará logo... Moldura dourada... Ao fundo desse quadro está o cofre. É lá onde guardo dinheiro, jóias, documentos. Pode levar tudo, ouviu bem? Tudo.

Quero que deixe apenas um anel de safira que está numa caixinha preta, aveludada. Trata-se de uma joia insignificante, sabe? Tem apenas valor sentimental... Pode levar tudo, tudo, menos o anel de safira, compreende? Você fará bom dinheiro com essas jóias, compreende? Dinheiro em espécie, não tem muito, ouviu? Não costumo guardar dinheiro em casa... Lá estão os talonários de cheques, os cartões magnéticos. Você pode levar tudo. Fazer muito dinheiro com as jóias, sabia?...

Espere! A sombra agora parece movimentar-se... Vejo-a mais encorpada do que imaginei inicialmente... Percebo como se mexe o vulto em contraste com a luz da porta... Seu movimento silencioso... Ah, meus vinte anos... Um sujeito como esse eu não relutaria em torcer-lhe o pescoço...

Ei! Nesse momento ele desata a falar... Os sons quase inaudíveis, mas sei que fala porque gesticula bastante e sinto o piscar de luzes em minha retina... E vejo outras sombras, que podem ser apenas fragmentos do meu desespero. Não, não... É mais provável que ele se dirija a um comparsa. Agora vai agir... É inevitável... Não é necessário que use de violência, será que ele compreende isso?

Oh, meu Deus! Que mal eu poderia lhe fazer?... Vem na minha direção... É agora... Ele talvez nem faça ideia de quem seja eu... Não saiba dos meus títulos, condecorações - o que represento para a sociedade do meu Estado. Ah, não sabe... Do contrário teria avaliado as conseqüências que sobrevirão desse ato estúpido de invadir minha casa, para me constranger dessa forma...

E Chagas, que não viu o intruso? Onde se meteu esse relapso? Chaaaagas! A voz que não sai, essa angústia terrível. As células gastas do meu cérebro, por vezes projetando imagens outras, confusas, longínquas... Marta!... Ô Marta, você está aí? Por que não responde, meu amor? Marta, não me abandone. Vê, Marta, sou apenas uma criança, não sou? Você seria incapaz de me dizer isso, mas sei que sou apenas uma criança. Olhe, Marta, ontem você colocou fraldas em mim... Percebi tudo e chorei, minha querida, mas você não viu meu pranto...

Não quero que coloque fraldas em mim, não esqueça! Quero apenas seu sorriso... Por que já não me permite sentir o seu sorriso, Marta? Veja, eu a amo muito, sabe? Você também me ama muito, sei. Fomos sempre tão felizes, não?...

Compreendo, minha querida, a felicidade se diluir quando envelhecemos. Você tem todo o direito de se cansar de mim. Fui sempre um velho turrão e agora me tornei um menino trabalhoso... Absorvendo você a cada momento... Está cansada de mim, mas não a censuro, Marta... Perdoe-me, vá! me perdoa?

Estranho. No lapso de alguns segundos chego a esquecer dessa grande ameaça que me cerca neste instante... Assim como se Marta e eu flutuássemos aos acordes de uma sinfonia de Wagner... Tudo muito nítido, sem aquela atmosfera surrealista de agora há pouco... Descortinando-se aos meus olhos, em velocíssima projeção... Lances de um passado muito, muito distante, porém tão presente ainda... Inexplicavelmente presente... Você belíssima, Marta. Lembra? Vem, vem comigo nessa viagem. minha doce Marta...

Você está maravilhosamente bela, meu amor... Seus cabelos... O leque francês, o broche de turmalina em contraste perfeito com a seda lilás da sua blusa. Lembra, Marta?

As imagens piscam velozes, mas a nitidez com que desfilam diante de meus olhos é de uma precisão absoluta... Sinto-me leve, meu amor. Vem... Vamos dançar, Marta... Ninguém dança melhor que você... Seu perfume é tão suave. Gosto do seu perfume... Do seu sorriso... Sabe, Marta, eu não saberia viver um minuto longe de você...

Lembra quando lhe disse isso pela primeira vez? Não, talvez você não lembre, porque foram tantas as vezes em que eu disse que não saberia viver longe de você... Nunca esqueci, meu amor... Foi na minha festa de formatura, ao som de Glenn Miller, lembra agora?

Você estava belíssima naquela noite... Ali eu compreendi que jamais poderia viver sem você, Marta querida... E você também pensou assim. Disse-me isso fitando bem dentro dos meus olhos... E nos beijamos apaixonadamente, ao som de Glenn Miller, lembra? Não era comum um gesto assim tão despojado à vista de todos, mas o nosso amor sempre foi maior que todas as convenções, não é mesmo, Marta?... Sabíamos como desvendar, dia-a-dia, os labirintos da nossa paixão... Nunca tornamos monótona a nossa convivência a dois, não é mesmo, Marta? Foi... Foi... Oh, minha querida... Tudo novamente tão confuso...

Meus olhos agora límpidos, brilhantes, vislumbrando mil faces que são só minhas e não suas, Marta... Meus sentidos, todos plenamente recuperados, me reintegrando à vida de uma forma original, como se fosse eu um pássaro, uma árvore, um objeto qualquer, exceto eu... Consciente, observando de longe um ser encurvado, inerte, morto, que seria eu. Lúcido, adormecendo lenta... Lentamente... E despertando... E despertando para a realidade... Marta se foi...

A presença incômoda desse estranho que agora se aproxima mais e mais de mim... Vejo a sombra agigantando-se em minha direção... Ah, meu Deus!... Por que ele não atira logo? Acaba de vez com tudo?... Sei muito bem que ele porta uma arma: o contraste da luz com o vulto esboça perfeitamente os contornos do seu braço, mais longo... porque segura um revólver... Parou!

Por que brinca assim comigo? Talvez agora me olhe fixamente e planeje que fim me dará... Onde estarão seus comparsas? Não creio que esteja só... Indivíduos assim geralmente agem em bando... São covardes. Por certo vasculham a casa em busca de jóias, dinheiro... Que levem tudo... Só não quero que submetam Marta a qualquer constrangimento. Oh, Marta, onde você está?

O vulto, nesse instante, se posicionou às minhas costas. Já não vejo a sombra, apenas a luz que vem da rua... O que quer, afinal? Por que não acaba logo comigo?

Está voltando... Outra vez a sombra que impede a luz de penetrar livremente pela porta. Parou... Talvez ainda avalie qual a melhor maneira de agir... Será que me reconhece? Minhas feições ainda conservarão algum traço do passado, quando estampavam meu retrato nas páginas dos jornais?... O professor ilustre das conferências... O Desembargador austero, o homem público? Não, não... É pouco provável que me reconheça... Deve ser jovem ainda...

Ora... Ora, veja! Bate-me nas costas, de modo... De modo... delicado... É. Delicado! Que significaria isso? Afasta-se um pouco... Sinto a luz com mais intensidade e vejo a sombra que se dilui... O que pretenderá? Comoveu-se diante de minha fragilidade? Percebeu que não enxergo, que sou um inútil e nunca lhe ofereceria qualquer resistência?... Não, não creio em gesto tão nobre... É mais provável que aguarde os comparsas... Não quer tomar uma decisão sozinho... Sim, é isso... Não devo alimentar qualquer esperança. Só temo por Marta...

O que houve?! Ele agora está se sentando no sofá à minha frente. Notei pela silhueta reduzindo-se à metade... Será que desistiu? Ah, meu Deus!...

Nesse momento sinto o perfume de Marta... É ela que chega... Cuidado, minha querida... Olhe, Marta, não quero que nada de mal lhe aconteça, viu? Tenha calma... Muita calma... Não se precipite, meu amor. Deixe que o bandido leve tudo, viu? Dê-lhe dinheiro, jóias, aparelhos... Tudo... Não tema por mim, eu já sou um traste velho... Mas você é muito importante, lembre-se disso... Muita calma, sim?

Vejo Marta caminhando na direção do vulto, que agora se ergue... Duas sombras... Na do homem, já não vejo o esboço da arma apontada para mim... Por que isso, hem? Calma, Marta, calma! Ela está muito próxima dele... Nenhum som... Eu gostaria muito de escutar mesmo que fosse o barulho das crianças lá fora... Tudo é silêncio... Um silêncio que me mata aos poucos...

Sabe, eu já não desejo a morte... Temo por Marta... Ela provavelmente sentiria um vazio imenso com a minha ausência... Só por isso não quero morrer... Sinto que Marta me ama com a mesma intensidade com que a amo... Nossas almas se fundiram num só corpo... É extremamente necessário que o sujeito entenda isso e não lhe faça mal... Nem a mim, porque Marta e eu necessitamos um do outro. Para sempre necessitamos...

Meus olhos inúteis, escancarados... As duas sombras agora se movimentam na minha direção, muito próximas uma da outra... A luz escassa... A sombra mais baixa, a gesticular com brandura, é a sombra de Marta... Quem sabe tenta demover o sujeito de uma atitude mais ríspida... Os dois vultos vindo ao meu encontro: luz e sombra, luz e sombra, luz e sombra...

Oh, Marta, minha querida, que pesadelo terrível! Sinto mais intensamente o perfume de Marta... Seu calor... Um sopro de vida... Eu queria tanto apertar Marta em meus braços...

Era assim que eu costumava dizer: quero apertá-la em meus braços, Marta... E eu a beijava longamente... Marta vem... Beija-me as rugas da testa... Afaga meus cabelos ralos - revigora-me... Até posso ouvir o canto dos pássaros lá fora... E quase posso ver o semblante de Marta, sereno, lúcido, e chego a ouvir sua voz: "E então, Dr. Lélio, o Sr. acredita que a fisioterapia lhe fará bem?", seguida por outra voz, mais grave, familiar:

"Sem dúvida, D. Marta! O enfarte sempre deixa sequelas, mas há boas possibilidades de que ele se recupere. Talvez até volte a enxergar”

E adormeço na serenidade de Marta:

"Que bom, doutor! Ele gostava tanto de ler..."

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