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Fortaleza Sitiada

O Centro Nervoso de Uma Metrópole Agonizante

Por ALima


O centro de Fortaleza começou a ser destruído pela inércia daqueles que vem "administrando" nossa cidade nesses últimos trinta anos. Primeiro por terem esses maus governantes permitido que descaracterizassem ou mesmo destruíssem completamente os prédios mais tradicionais que antes haviam abrigado instituições do Estado ou servido de residência para respeitáveis figuras da nossa história, e depois pela incapicidade de conterem a invasão de caamelôs, prostitutas e desocupados que passaram a lotear todos os espaços contidos no quadrilátero formado pela Avenida D. Manuel, segindo até a Imperador, passando pela Duqe de Caxias e se fechando na Dr. João Moreira. Belos sobrados, bangalôs e até o famoso chalé que havia na Rua Gulilherme Rocha, junto com a tradicional Fênix Caixeral, simplesmente dsapareceram, dando lugar aos famigerados estacionamentos de envelhecidos comerciantes já aposentados e ricos, porém não menos gananciosos no mister de faturar sempre mais, pouco lhes importando que a nossa carcomida loura viúva do sol agonize de modo irreversível. 

Por outro flanco, é o ataque insano dos indomáveis camelôs com suas barracas imundas e a empáfia de antigos donatários, todos acobertados por políticos demagogos que chegaram ao absurdo de implantar o monstrengo beco da poeira em pleno coração da outrora esplendorosa Praça José de Alencar com seu exuberante Teatro, e permitir que uma imensa feira de catrevages se instalasse definitivamente na Praça vizinha, a famosa Lagoinha que já teve fonte e retreta e que olhava, mansa, para os seculares oitizeiros da Avenida Tristão Gonçalves, que também foram covardemente assassinados.

E o pior de tudo, meus conterrâneos, é que esses péssimos administradores, de modo astutamente canalha, ainda falam em revitalização do centro. Chamam-nos a cooperarmos, acorrermos aos escombros, a habitarmos os prédios abandonados, imundos e fétidos, a desfrutarmos de algo que já não tem cor nem cheiro.

Porque tudo que planejam é pensando exatamente em sacrificar mais ainda a vida do indefeso contribuinte. Qual o louco que se aventuraria a sair do seu bairro para fazer compras em uma loja do centro, sabendo que não há vaga para estacionar seu carro? Ainda que ele tencione deixar seu veículo a umas cinco ou dez quadras distante, mesmo assim não estará a salvo do ataque dos guardas da autarquia, uma vez que não apenas o centro como também todas as suas adjacências, estão completamente tomadas pela traiçoeira Zona Azul. Nem tanto pelo valor da cartela, mas pela dificuldade de você encontrar vaga ou quem a venda no momento que dela necessita.

Portanto, se não quiser pagar dobrado ao flanelinha, volte rápido para casa, pois se permanecer, correrá o sério risco de ser multado enquanto se dirige a uma banca de jornais em busca da papeleta.

Voltarei ao assunto.


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