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Análise Ligeiramente Técnica de um Folhetim Bárbaro

Nem Surrealismo Nem Fantasia, Apenas Absurdo

Por ALimaS

Na vida real uma assassina, esquizofênica e absurda ao porte da Flora não estaria livre e gargalhando de todos, em nenhuma parte do mundo. Na ficção, jamais habitaria as páginas de um escritor pelo menos razoável. Nem existiria. Porque o indivíduo mata por vingança, ódio, loucura, legítima defesa, em estado de guerra, de modo acidental etc. Não mata de forma contínua sem que tenha sido motivado por algo que fuja à análise até do melhor especialista no ramo da psicologia, ou sendo ele um psicopata, o que não parece ter sido a proposta do autor para com a personagem de Patrícia Pilar, que transita na trama como se fora uma criatura perfeitamente normal, à semelhança de qualquer cutra do nosso cotidiano. É, portanto, inverossímil, o caráter dessa personagem que simplesmente mata.

Outra: nos relatos mais dramáticos da clássica literatura, uma mãe seria incapaz de odiar a própria filha com tamanha intensidade e ao mesmo tempo fingir doçura. Amor e ódio são sentimentos inteiramente díspares não apenas na vida real. A máscara do ódio se incrusta na face do indivíduo, para nunca mais ser removida, ao passo que o amor terá sempre a cara limpa, pura; jamais se mesclariam em um mesmo ser, ainda que nas composições ficcionais de qualidade duvidosa. Não por acaso que nas narrativas antigas o ódio tinha que se caracterizar na figura de uma bruxa, e o amor na de uma bela princesa, o que se estendia para outros tipos de encenações, a exemplo das óperas, em que os atores se valiam da máscara propriamente dita para se dizerem bons ou maus. Nessa novela, percebe-se claramente o enorme esforço que Patricia Pilar faz nas cenas em que deve se mostrar uma pessoa não apenas má, mas sobretudo hipócrita e até ilógica em qualquer narrativa. Assim como se ela tivesse sido escolhida para ser a boazinha da novela e, de repente, o cara resolvesse que ela passaria a ser a vilã. Desse jeito, meus amigos, só mesmo na base da máscara.

A aura, o carisma, o porte elegante e suave da atriz Patrícia Pilar não se adequam ao biotipo dessa famigerada figura que interpreta. Trata-se de uma bela mulher que transpira ternura, e que jamais nos convencerá do contrário, nem que aperte mil vezes seus olhinhos ou contraia os músculos da face.


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