Pular para o conteúdo principal

Cearenses Ilustres: Oliveira Paiva

A Escrita Sem Subterfúgios

Por ALimaS


Manoel de Oliveira Paiva, cearense dos bons, produziu simplesmente o livro mais importante do Realismo, em nosso Estado: "Dona Guidinha do Poço", uma obra que ficaria escondida do grande púplico durante sessenta anos por uma série de fatores. Com o falecimento do autor, sua viúva entregaria os originais a Antonio Sales, que os repassaria a Américo Facó, até serem resgatados, décadas depois, por Lúcia Miguel Pereira, que finalmente os publicou em 1952.

O livro baseou-se em caso verídico envolvendo poderosa fazendeira de Quixeramobim, por nome Marica Lessa, protagonista de rumoroso crime passional que resultara na morte do próprio marido. Presa e conduzida à Forataleza, a mulher cumpriu pena na cadeia pública, de onde seria solta anos depois, passando a perambular pelas ruas da nossa capital até morrer na mais completa miséria.

Revisitada hoje, momento em que campeia violência bem mais terrível, e lida superficialmente, a história poderia ser vista como apenas mais um triste episódio dentre tantos que invadem os lares brasileiros via TV. Mas, não. Oliveira soube, como nenhum outro de seus talentosos contemporâneos, imprimir a essa trama e a seus personagens alguns elementos que diferenciam a verdadeira literatura do mero folhetim.

Na excepcional narrativa, não tanto o amor ilícito de uma mulher casada, por seu sobrinho, mas, sobretudo, a maestria com que o autor a desenvolve. Os múltiplos recursos estilísticos, o enfoque psicológico, a dupla personalidade de uma poderosa senhora do poço, que, se por um lado é assassina, por outro também socorre os retirantes que a buscam, sedentos.

A construção perfeita de um cenário que chega a se sobrepor à triste realidade do fato em si. O adultério, seguido pelo bárbaro crime, não mereceria punição maior diante da seca atroz que mutila povoações inteiras, e onde quem detém o controle de um mísero veio d´água é sempre o senhor da razão. Oliveira Paiva, portanto, não apenas escreveu um livro genial: terminou por construir uma das mais significativas personagens da ficção brasileira de todos os tempos. Uma mulher cega de paixão: capaz de amar com a mesma intensidade com que rebateria uma infâmia ou resguardaria seu nicho - como num poema de Jáder de Carvalho.

Manoel de Oliveira Paiva nasceu em 12 de julho de 1861, em Fortaleza, estudou no Rio de Janeiro e, de regresso à terra natal, participou de vários movimentos literários, dentre os quais a fundação do Clube Literário, em 1886. Faleceu em 29 de setembro de 1892, vítima de tuberculose. Além de Dona Guidinha do Poço, também publicou contos e escreveu o romance "A Afilhada", publicada em folhetins no jornal "O Libertador".

Postagens mais visitadas deste blog

BUKOWSKI NUTRIA-SE DE POEMAS SUJOS E PROSTITUTAS DEPRAVADAS

Conto de Astolfo Lima

Aos treze anos, Bukowski disse, numa roda de garotos, que só haveria de se sentir plenamente realizado no dia em que acertasse uma bordoada de jeito na fuça do seu encardido genitor, um casca-grossa que costumava espichar-lhe o couro para escoar frustrações que lhe permeavam a vida chinfrim. "Let it be!"
Vociferou esse seu intento enquanto os colegas, um a um, perfilavam anseios mais brandos: um querendo se tornar aviador quando crescesse; outro, maquinista de trem; outro mais, artista de cinema, cantor de blues ou boxeur, e assim sucessivamente, como ocorre naquela fase inconsequente e pueril de todo adolescente. 
"Assim farei, ainda que necessite dar o fato como lastimável acidente doméstico, em que, postando-me ao corredor da casa, armado com fornido taco de beisebol, simularei rebatidas de bola como se desejasse não mais que aperfeiçoar jogadas para marcar presença no colégio, onde todos me discriminam por conta de minha pouca habilidade nesse …

T S ELIOT E AS EMANAÇÕES DELITUOSAS DE CHARLES BAUDELAIRE

Por Astolfo Lima


O casamento de T. S. Eliot e Vívien estava rachado desde 1922, porém os dois ainda se digeriam sob a mesma plataforma até o início da década de trinta. 
Ela, com fortes sinais de instabilidade mental, que se acentuara muito ao vir a público sua infidelidade ao marido, com Bertrand Russell. Eliot, insensível às coisas supostamente vãs, e uma crueldade que por vezes atingia pessoas mais próximas, como a desfeita a Ezra Pound, logo após o amigo adverti-lo de que "mutilar" as 92 linhas de "Death by Water", transformando-as em mísera estrofe, não fora ideia das melhores. 
Indignado com a intromissão do ex-amigo, Eliot simplesmente vociferou que o discurso de Pound apenas o incentivara a fazer as coisas do seu próprio jeito. 
O poeta Eliot, a esse tempo, como todo astro de maior envergadura, transitava entre seus pesadelos mais íntimos e a quase obsessão de agrupar em uma mesma arquitetura os emanações delituosas de Baudelaire, os slides etéreo-emblemáti…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: O PLAYBOY DA ALDEOTA

Por Astolfo Lima


Zé Bacurau andava mais afável ultimamente, algo raro num casca-grossa raivoso que tentava impor moral denunciando no Distrito Policial qualquer besteira que ocorresse no bairro. É que sua filha Zilá estava de namoro firme com o Valdecir, um ricaço da Aldeota, amigo de vários figurões da alta sociedade fortalezense, inclusive do prefeito. 
Mal apareceu em nossa rua, sob pretexto de procurar terreno para compra, o tal sujeito foi logo se enturmando com os frequentadores da bodega do Juarez, onde passou a comparecer nos fins de semana, oferecendo birita aos papudinhos, distribuindo balas pros meninos, e, claro, ganhando aos poucos todas as fanzocas de Wanderley Cardoso que havia nas imediações, inclusive a filha única do referido Bacurau, para desespero dos marmanjos mais velhos que babavam pela gostosona.
Zilá era, de fato, uma princesa: morena de olhos verdes, longos cabelos, corpo de sereia como se dizia naquele tempo, e também namoradinha secreta de nós outros, broch…