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Especial: Jáder de Carvalho

 Ligeira Biografia do Poeta

JÁDER DE CARVALHO Nasceu em Quixadá, 29/12/1901 e faleceu em Fortaleza (07/08/85). Socialista da melhor cepa, o poeta fundou os jornais O Combate, A Esquerda ,e Diário do Povo - em que atuou ao melhor estilo de João Brígido (sobre quem escreveria magnífica antologia). Homem valente, destemido marcou colado os maus governantes e políticos desta terra de sol, fosse através de artigos na imprensa ou pelo arrojo de sua oratória. 
Jornalista desassombrado, tinha ainda à cultura do sociólogo, que se fariam fundamentais quando de sua viagem pelo romance e a poesia. 
Em 1928, em parceria com outros pioneiros do movimento modernista no Ceará, lançou O Canto Novo da Raça; em 1931, Terra de Ninguém, e, a estes, seguiram-se vários outros livros de versos nos quais o poeta sempre cantaria a sua terra e o seu povo. 
Sobre Terra Bárbara, de 1982, Paulo Ronai teceu a seguinte apreciação: "Para o poeta não há espanto, deslumbramento, gozo, horror, medo, iguais ao do sertão, que ele identifica como o âmago do Brasil". O livro Menino Só seria editado pela Universidade Federal do Ceará após a morte do grande poeta. 
Jáder foi um escritor que jamais se omitiu do seu tempo. Há na sua literatura fragmentos do jornalista, do professor, do jurista, do humanista, do homem, enfim, que nunca fugiu ao bom combate. Panfletário? Por que não? Polêmico? Evidente que sim, mas também um homem terno e sentimental. Na prosa, destacam-se os romances (todos de cunho social): Classe Média (1937), Doutor Geraldo (do mesmo ano), A Criança Vive (1946), Eu Quero Sol (1946), Aldeota (1957), e Sua Majestade, O Juiz, dentre outros. De temas sociológicos são: O Problema Demográfico Brasileiro (1930), O Índio Brasileiro (1930) e Povo sem Terra (1935). 
O poeta foi membro da Academia Cearense de Letras, da Sociedade Brasileira de Sociologia, Instituto do Nordeste e várias outras instituições culturais e científicas. 
Presto aqui ligeira homenagem a esse estupendo homem das Letras em nosso Estado, com três poemas extraídos do livro Terra Bárbara, aos quais dei formato de conto.

ENTERRO DE ANJO

O caxãozinho do anjo era levado por meninas. Os pais do pequenino morto choravam, mas de alegria: dali por diante teriam um advogado no céu, junto a Nossa Senhora e, muito especialmente, junto ao Menino-Jesus. 
Vozes infantis subiam da terra, ganhavam o azul. O canto das meninas do cortejo mortuário voava com asas douradas, que eu, menino também, distinguia — e como distinguia! — no azul do céu daquele verão. 
No fim do pequeno cortejo iam três músicos. Eles tocavam quando as meninas paravam de cantar. Era um clarinete, um bombardino, um pistom. Lavradores deixavam o trabalho e se recolhiam àquela hora triste — aquela hora triste da tarde, que o canto alegre das meninas não conseguia alegrar. Os lavadores, à passagem do caxãozinho azul, tiravam o chapéu e persignavam-se. Dois meninos, montados num boi, ficaram observando. Mulheres diziam: "Criança feliz. Já está com Nossa Senhora, pedindo pelo pai e pela mãe." Uma delas suspirou: "Felicidade assim há muito não aparece lá em casa." Na torre da igrejinha o sino repicava. 
Tudo era festivo naquela hora: as meninas, a música, o sino. Triste mesmo, só a tarde; a tarde de sempre da Serra do Estevão. Não. Também era triste o coração deste homem, então menino. E eu perguntava por que Nossa Senhora e o Menino-Deus não se lembravam de mim. Por que um bando de meninas não me levava também por aquela estrada sinuosa, perfumada e florida como todos os caminhos de minha terra. 
Minha mãe, apesar de moça e bela, andava tão silenciosa e amargurada... Eu, no céu, não haveria de enxugar suas lágrimas? De enxugar sua voz e o seu coração molhados de pranto, por causa dos namoros do meu pai? Mas não morri. E, vivo, nada pude fazer por ela...

PASTORIL

Dispute, irmão, a Presidência da República. Conquiste uma embaixada na Europa, um consulado na América Central. Eu tenho amigos que desdenharam o Parlamento e se fizeram Desembargadores. São felizes. Companheiros de infância largaram-se pelos caminhos do mar: uns negociam no Rio; outros passam fome em São Paulo; dois ou três pisam terras longínquas, no fim do mundo, recebendo no rosto o vento de oceanos e mares que nunca vi, ouvindo a música estrangeira de línguas que jamais escutei. 
Não desejo a Presidência da República. Paris, Nova Iorque, Berlim — todas me entediam. Quis a princípio ser dono de uma quinta em Portugal. Colher maçãs. Banhar-me no Mondego. Ouvir missa na Sé de Braga, e, uma vez por outra, subir o promontório de Sagres, para ver, na lembrança, as caravelas do Descobrimento. Porém do fundo da planície saíram mãos invisíveis e me seguraram as pernas. Do alto da Serra do Estevão, outras mãos me agarraram os cabelos. Dos rios secos, dos riachos ausentes, das lagoas agonizantes, nasciam brados que me mandavam parar. Das fazendas, a voz do gado sonolento, o cheiro do leite mungido, o gosto da coalhada e do queijo; o açude, as marrecas, as jaçanãs, tudo gritava: "Não vá!" E eu não fui. 
Hoje, a vida é o meu cavalo, os meus bois, os meus carneiros: servem para minha alegria, quando tudo é verde; para ferir meu coração, quando não chove; para ensinar-me que o amor aos homens começa no amor aos bichos, na amizade às plantas, no afeto pelas águas correntes e claras, na pena diante dos rios, das lagoas e dos açudes bebidos pelo sol.
Perguntem-me em que ano nasceu o Patriarca da Independência; peçam-me a data da morte de Pedro II, não saberei responder. Mas guardo de cor o nome dos pais e dos avós da novilha "Estrelinha". Não esqueço a vida quase romântica da vaca "Borboleta", que morreu de parto, chorando. Quando essa vaca tomou cria, a doze de março de 54, minha prima Cecília, solteirona, viu a cena e emocionou-se. Adivinhei-lhe o drama íntimo e lhe disse baixinho, pelos olhos: "Prima, a Natureza quer filhos. Não perca tempo, ouviu?"

BÍBLIA

Manuel é magro, forte, espadaúdo. Moreno. Nada de cearense. Beduíno puro no tipo físico, no olhar que vê longe, no andar lento de tangedor de camelos. Manuel jogava, bebia, surrava mulheres. Um dia, em mesa de jogo, matou um homem, e, de chicote em punho, surrou o cadáver. Na prisão, foi detento solitário, caladão; uma visita por semana: a da mulher. Mas veio um companheiro de cela, Bíblia sempre diante dos olhos, lendo em voz alta. Manuel gostava. Havia trechos de que gostava mais. Pedia então: "Diga de novo este pedacinho." 
Aprendeu a ler, que ele nunca fora à escola. A mulher lhe trouxe a Bíblia. Leu, leu, leu. (Manuel, antes do crime, era gozador da vida, tipo bem vestido). Leu, leu e, um dia, pediu ao diretor da cadeia: "Quero purgar aqui na terra os meus pecados. Vou vender lenha, vestido de detento, pelas ruas da cidade, empurrando uma carrocinha. Não desejo mais a vida de antes. Quero parar numa mercearia, ter descanso". Mas não vendia fumo, não vendia cachaça, não tinha banca de jogo-do-bicho. Quebrou. Voltou para a cela, lendo, lendo a Bíblia. 
Tumultuo na cadeia. Sublevação de presos, por fraude no pagamento das diárias. "Todos em forma" — gritou um major, furibundo, pisando forte para começo de inquérito. (Manuel tinha a cara feia, patibular, enferrujada). 
O major falava aos seus botões dourados, ao passar os presos em revista: "O chefe só pode ser este sujeito." E deu violento bofetão na face direita de Manuel. A cadeia, inteira, pregou os olhos, de respiração suspensa, no surrador de mulheres — o que matara um cristão e desfeiteara o cadáver. 
Manuel encheu os olhos de um fogo desconhecido e sorriu. Os presos não entendiam. Ele rindo, em vez de reagir. Então sucedeu o inesperado: "o cara de bandido", serenamente, ofereceu ao inquisidor a face esquerda. "Dê também nesta, major. Jesus apanhou nas duas."
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