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Para onde caminha a nossa literatura

E A Nossa Literatura, hein?

por ALimaS


Qual é mesmo a real função da Literatura nesse tempo de Internet, com os seus espaços ilimitados, quando todos se sentem escritor, jornalista, poeta, crítico das Artes etc? A Literatura tenderia a se transformar em arte cada vez mais elitista, sisuda, acadêmica e completamente inacessível ao grande público? Que tipo de literatura seria consumível hoje, que não fosse aquela voltada para o esoterismo e entretenimento, para as fórmulas mágicas de enriquecimento rápido, as técnicas comerciais, a salvação da natureza etc?

Claro, não seria razoável se produzir nesse momento uma literatura pesada, que ficasse restrita apenas ao circuito acadêmico. Mas qual seria a boa literatura nesse tempo de extrema velocidade, quando somos bombardeados diariamente por um mundo de informações que jamais serão absorvidas? A criação de Faculdades para escritores não seria apenas um oportunismo comercial, já que têm surgindo inúmeras puramente caça-níqueis?

A compulsão pela escrita é outra coisa que me intriga. O que faria um sujeito largar tudo para se dedicar inteiramente à literatura, mesmo sabendo que não haverá nenhum retorno? Por outro lado, se não há nenhum retorno para esses, como questionaremos o papel da Mídia na formação do pensamento nacional contemporâneo, uma vez que é essa quem normalmente concede legitimidade ao falso artista? A quem interessaria investir pesado na subliteratura didática que é fartamente distribuída na Rede de Ensino e que só favorece a meia dúzia de falsos escribas que vivem a mutilar os maiores clássicos da verdadeira literatura? A coisa funciona mais ou menos assim: o editor mercantilista contrata pseudos escritores para fazerem um resumo precário das obras mais representativas, da literatura que depois constarão no catálogo dos para-didáticos das grandes empresas de Ensino (um retalho de Victor Hugo ou Shakespeare, por exemplo, não sai por menos de 70 reais).

Outra coisa: as obras do domínio público, que são produzidas em toneladas e que já contam com um público de cabresto, imposto pelas academias, secretarias de cultura e associações correlatas, tiram das editoras qualquer interesse de investir em novos escritores. Não seria o caso de o Governo estabelecer critérios nesse sentido? Por exemplo: inventariar todos os clássicos da nossa Literatura, criar um fundo de proteção em que o editor poderia reeditá-los, sim, mas dando uma contrapartida, que seria a publicação dos novos? Outra boa ideia seria questionarmos os critérios na escolha dos autores a serem catalogados para os vestibulares, em que a preferência recai sempre para as obras do domínio público, o que distancia cada vez mais o jovem dos novos escritores.

haveria solução?

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