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Resgatando Historinhas do Tempo da Gloriosa

Ilustração de ALimaS


Por ALimaS

A repressão estava no ar. Todo mundo suspeito de alguma coisa, evitando o movimento das ruas. 

Medo absurdo de ser colhido por uma câmera indiscreta manejada pelo falso motorista de táxi ou pelo inocente vizinho, ou mesmo pelo meganha, à vista de todos e ser arrastado até uma delegacia para prestar esclarecimentos aos hômi, levar porrada e, quem sabe, até desaparecer na noite escura sem deixar rastro. 

Reunir-se com a turma na esquina para falar de futebol ou sobre outras futilidades, nem pensar. Corria-se o risco de ser preso em flagrante sob suspeita de estar pervertendo a ordem, conspirando contra o grande mandatário. 

 Foi nesse clima brabo que conheci uma jovem e idealista garota, com quem passaria a me corresponder através de cartas: eu à época um obscuro navegador dos mares bravios e ela uma fascinada estudante de Letras, até que a perderia de vista dois anos mais tarde, quando eu já pensava seriamente na possibilidade de dividir com ela o meu precário espaço naquele cenário de incertezas. 

Era uma jovem repleta de sonhos, como tantas naqueles tempos de incertezas, e para quem, muitos anos depois depois, eu dedicaria um conto.

Foi essa moça que me falou pela primeira vez sobre Pablo Neruda, o poeta que encantava a galera com seus versos fincados no solo de uma América devastada por regimes brutais, a qual procurava redimir com seu brado de denúncia e esperança. Neruda o gentil porta-voz dos desvalidos. O homem que clamava por justiça e lotava os estádios de futebol, recitando poemas como quem marca um gol de placa. 

Absorvido em coisas mais práticas, tentando por outro lado livrar a própria pele e sem tempo, portanto, para iniciativas sentimentais, pouco me interessava quem fosse ou deixasse de ser o festejado Neruda, mesmo porque, à primeira vista, me parecera um sujeito dispersivo demais para meu gosto particular ou meu desgosto, eu que sempre abominara versos retóricos e rimas de repuxo, não verdadeiramente espontâneas. Só não tive foi peito de dizer àquela amável senhorita que detestei os poemas de Pablo Neruda, à primeira vista. 

Como poderia ousar na crua afirmação de que o poeta me parecera muito mais um refinado panfletário? Um bem sucedido na vida e tudo mais? 

Ora, externar de viva voz tudo que eu pensava sobre o famosíssimo poeta seria me expor gratuitamente ao ridículo, cair em desgraça perante os companheiros.

Blasfemar contra Neruda, o "nome" que emoldurava a estante de todos os intelectuais da minha geração, "a marca", o carismático poeta que emprestava a voz ao sofrido povo latino-americano, seria admitir-se um alienado, sem condições de fazer parte daquele soberbo grupo de quixotescos revolucionários que desejava simplesmente libertar o planeta de todas as mazelas. 

Dessa forma, para não magoar uma das criaturas mais puras que já conheci em toda minha vida, guardei só para mim essa impressão que tive do festejado Pablo Neruda. E creio mesmo que o manteria no limbo, não fosse pela leitura do livro Pablo e Dom Pablo, de Jurema Fanamour. em que a autora desnuda a verdadeira personalidade do poeta. Assustador.

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