01/09/14

Jabor: a gênese de uma farsa atroz, e outras nem tanto



 Cavilações, Xavecos e Multimídias

Por James Kafka

Nos anos sessenta e setenta, para um cara se tornar celebridade nacional nem precisava que fosse artista, empresário-playboy ou herdeiro de grande fortuna. Bastaria só um pouco de picardia, papo agradável e senso de oportunismo no ato de se enturmar com o pessoal da música, teatro, literatura, cinema etc. Batata! Dependendo do "talento", logo logo o sujeito se estabeleceria como uma espécie de multimídia, ou seja: aquele camarada sem profissão, digamos, definida, mas que "assessora" o cineasta iniciante, escolhe o repertório do cantor que vai gravar o primeiro disco, orienta o ricaço que deseja montar uma casa de shows, e até escreve umas coisas nos jornais e revistas do amigão milionário a quem foi apresentado um dia. 
A esse tempo de chumbo grosso, ser amigo do Chico Buarque ou do Gláuber Rocha, já seria meio caminho para ganhar visibilidade nacional. Transitar entre os caras da tropicália, conhecer a turma do Pasquim e circular por Ipanema, outra forte credencial. Beber um whyskinho com Vinícius e a turma da bossa-nova, então, seria a glória total. Querem um exemplo? Miele. Dizem que não tocava, não cantava, mas se fazia presente em todas, formando parceria com Bôscole, produzindo musicais, o que haveria de lhe conceder crachá permanente da Globo. Outro: Nelson Mota, também em atividade até os dias atuais e sempre ostentando o mesmo sorrisão de meio século atrás; uma figura, sem dúvida. Homem de vários instrumentos (no sentido figurado, claro): tanto canta, como assobia e ainda chupa cana; talentosíssimo, evidentemente, mas sem que se saiba até hoje se ostentaria de fato uma profissão reconhecida pela organização mundial do Trabalho. Outro mais: o finado Sargentelli, que Deus o tenha e guarde. Esse era formidável. Quando Anunciavam "Sargenteli e suas Mulatas", a galera voadora ficava no aguardo de um sambista cheio de malemolência a cantar para que mulatas sensacionais pudessem mostrar toda a magia da mulher brasileira. Mas qual o que, meus amigos! Lá vinha aquele senhor em passinho de ganso, tão-somente a conduzir quem não precisava de muletas. 
A mais famosa de todas essas celebridades não artistas propriamente ditas, porém festejadas como tais e assíduas portanto na velha mídia ainda formadora da falsa opinião, é mesmo o Arnaldo Jabor, sem dúvida nenhuma: virou até oráculo nacional, por conta do seu discurso verborrágico-rancoroso-chauvinista contra o PT. Nunca me interessei em ler sua biografia, mas pelo que sei, ele também não cantava nem fazia música naqueles terríveis anos de chumbo, tampouco era jornalista, cronista ou figurante da Globo, mas apenas um cara ligado à turma que desovava pornochanchadas patrocinadas pela velha EMBRAFILMES que o Presidente Collor de Mello extinguiria sob alegativa de que apenas sangrava a grana do contribuinte financiando tolices. Dizem, inclusive, no mundo da sétima arte tupiniquim, que foi essa uma das poucas decisões do caçador de marajás que realmente surtiram efeito. Arnaldo, porém, não ficaria na mão, claro. Acho até que ele nasceu para essa nobre e pedagógica função que até hoje desempenha nas Organizações Globo, onde se transformou no maior astro do filme que ele próprio nunca produziu; no melhor intérprete de si mesmo - a grande unanimidade nacional. Patético! Isto é: louvável! Nenhum artista de verdade, de carteirinha e tudo, jamais lograria tamanho êxito e deteria tanto poder de enganação através de odiosos monólogos quanto esse fenomenal multimídia sem profissão definida.

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