24/04/14

Jorge Luís Borges: discurso metafísico de um bombardino

O texto de qualidade tem o mérito de reconstituir-se por si mesmo - escreveu Borges. Ou teria sido eu?
Ilustração de Astolfo Lima

Literatura sem subterfúgios


por Astolfo Lima

Primeira vez que Jorge Luís Borges ouviu sobre irrealidade do mundo foi pela voz de Macedônio Fernandez, velho compatriota seu, tido como visionário por difundir teses supostamente estapafúrdias relacionadas à literatura, ao mesmo tempo em que se diluía ele próprio na confecção de primorosos versos de caráter fragmentário, com os quais propunha ao distinto público a relevante incumbência de decifrá-los ou conceder-lhes itinerário possível. Aquele lance de obra aberta, inacabada, ou intertextualidade - conforme o jovem Borges haveria de assimilar, anos depois. 
"O texto de qualidade tem o mérito de reconstituir-se por si mesmo, daí o segredo de romper o tempo e propugnar a desnecessidade do artista enquanto agente rubricador de conceitos aleatórios" - proferia o até então apenas excêntrico e obscuro Macedônio, reiterando em tom grave, entre uma baforada e outra de ordinário charuto guatemalteco: "Parto da premissa de que absolutamente tudo no universo das letras já foi estabelecido desde a fundação do mundo, cabendo à posteridade não mais que a insignificante tarefa de percorrer o imaginário coletivo, o que, no máximo, nos conduzirá a reflexões filosóficas ou ao preparo de poemas ocasionais. Nunca, porém, à elaboração de uma obra mais ampla, essencial.
Maravilhado com esse viés metafísico do velho poeta - que fora amigo íntimo de seu pai nos tempos de Faculdade, o primeiro impulso de Jorge Luís seria reescrever o Paraíso Perdido, de Milton, e estabelecer intermináveis diálogos com Spinoza, Virgílio e Luís de Camões, deixando para uma fase posterior os enxertos enciclopédicos nos livros de maior envergadura estética. Escrever contos, romances ou poesia, portanto, não passaria, para ele, de mera profilaxia, uma espécie de busca da arte como invenção e não simplesmente para negar os rudimentos naturalistas da ficção mais tradicional ou repelir os escritores que trabalham no limite do verossímil. Ou seja: de Macedôno Fernandes, Borges assumiria inclusive o discurso verbal.
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