Erro Crasso, Doutor
Maura Lopes Cançado
Era outono - não mudou de estação.
Águas tremiam eternizadas na planura dos lagos,
como no ar tremeluziam palavras.
Lentes espelhavam figuras catatônicas - e nas extremidades
dos dias, novas claridades entravam - não de todo límpidas.
Rios solenes, leitos profundos, grave caminhar.
Se tive consciência é mistério dos nautas - imagens
elevadas a,té o desconhecido:
Não esmaguei as prováveis flores
da Primavera; não mudou de estação.
Sebastião de França dizia-me: "- Você chega a ser selva¬gem, tão grande é a sua timidez". Não é exatamente timidez. Prefiro considerar como sendo minha predileção pelo essencial. Se falo mais do que costumo permitir-me, faço-o na tentativa de perder-me. Sinto-me logo cansada, além de envergonhada. Apesar de ser a maneira considerada normal. Todas as pessoas minhas conhecidas agem assim. Como são dispensáveis,quase sempre. Gostaria de matar todas as pessoas, de vez em quando, ver-me livre, e ressuscitá-Ias, também de vez em quando. Não me agrada estar comprometida com alguém, constantemente, ou com alguma coisa. Faço literatura se desejo, não possuo dis¬ciplina, ignoro esquema de trabalho, abomino que me impo¬nham deveres para com as coisas que me agradam. Venho sozinha para o hospício; se me obrigassem, lutaria com todas as minhas forças para não vir. Naturalmente faz parte da mi¬nha esquizofrenia esta maneira de ser. E a maneira de ser deles deve fazer parte da sua mediocridade. Percebo certa imoralida¬de na luta que caracteriza as pessoas para conseguirem um lugar no mundo. Que falta total de pudor - como se esforçam. Ainda têm coragem de dizer que nesta luta está o valor. Quanto a mim, sou demais orgulhosa para lutar. Tudo me vem por acidente. Aceito as coisas imediatas e geralmente consideradas simples. Apenas consideradas, pois os eruditos então me parecem de uma simplicidade triste. O, os eruditos! E eu que des-
prezo até as palavras mais primárias. Costumo usar muito a mͬmica para comunicar-me, já que possuo tão restnto vocabulário. Se me refiro a um escritor famoso, digo: "- Aquele homem, americano ou inglês, não estou certa. Escreveu uma porção de livros. Li um deles, Contraponto". Mas os tais eruditos. Os crÍticos literários são sobretudo parasitas. Não saberiam existir se outros não Ihes dessem pasto. Ruminam, ruminam, depois lançam palavrório. Por que falar tanto de Dostoiévski, s~ Dostoiévs¬ki está feito? Só posso dizer isto, acerca de qualquer Itvro: é bom, é ótimo. Se digo ser mau, o problema é meu, ou do escntor - que não soube escrever.
Costumo pensar em tecnicolor. Reconheço as pessoas pelas suas cores. Quanto a mim, sou quase sempre' neutra. Os ho¬mens me parecem dignos: apelam para o cinza e o marrom; os pederastas, listrados, como as zebras; as mulheres, estas, vejo-as sempre de amarelo - amarelo vivo-espantado. Nletzsche p disse: " ... as mulheres continuam sendo gatas e pássaros. Ou, melhor, vacas". Vacas amarelas, acrescento.
Mentir é meu maior desempenho sobre a terra. Para quem?
Porquê? Não tem importância "O audacioso jovem no trapé¬zio volante" (vou começar daqui a pouco a reler este conto de Saroyan). A moça, Maura, trapezista, se equilibrando mal. Sem¬pre desejei ser artista de trapézio. .'
_ Maura, querida, queridíssima, não procure mais complt¬cações. Você, linda, se basta. (Evitar sobretudo as amarelas. As Q1ulheres dos meus amigos são vaquÍssimas. Invejosas, não me toleram nem permitem que eles o façam.) Maura, Super-Mal,lra, Hiper-Maura, Mauríssima, Maura de Todas as coisas de nada, Solene e Vaga, Longe e Presente: enamore-se sempre mais dos seus olhos, das suas pernas, dos seus seios, cabelos. Enamore¬se cada vez mais - o resto é mentira.
_ Escute, lance um olhar desvairado para todas estas caras azuladas de embrutecimento. Assim, apenas com este olhar, você pode deixá-Ias aturdidas. Agora, adeus. Hein? - adeus. Adeu~.
Estou brincando há muito tempo de inventar, e sou mais a bela invenção que conheço. Antes me parecia haver um de¬pois. Agora não me parece haver além de agora. Há muito tempo o tempo parou. - Onde? Sou o marco do esqueCimento.
Deitada em minha cama, passei longa mente as mãos pelo meu corpo. Sou deveras acariciável. Meu corpo me agrada. Se tivesse me dedicado ao cinema, me faria muitas vezes fotogra¬far de costas, como Marilyn Monroe. Nasci para ser amada, acariciada.
Trecho do livro Hospício é Deus, publicado pelo Círculo do Livro.
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