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18/09/14

O dia em que aprendi a voar de bicicleta

Crônicas da Primeira Juventude

Ilustração do autor

Por Astolfo Lima

Impossível descrever a sensação que experimentei quando consegui equilibrar-me numa bicicleta pela primeira vez. Ora, era apenas mais um daqueles prazeres quase imperceptíveis que permeiam nossa primeira juventude e que somente muito tempo depois, já nos estertores da estupidez adulta, é que iremos descobrir o quanto significaram no delineamento do nosso caráter.

Seria a tal felicidade propugnada pelos filósofos em seus extensos tratados, mas ainda assim incompreensíveis para nós outros, seres comuns, vez que impossível resgatar um momento mágico no seu estado original. Se é que me faço entender. Aquela coisa: você recorda algo, sabe que foi bom, porém ao repassá-lo anos depois, mover-lhe-á tão somente a nostalgia amena, o prazer efêmero de poder delineá-lo numa crônica banal. Sim, porque impossível vivenciá-lo outra vez recompondo todos os elementos que ensejaram aquela circunstância agradável, e, o mais difícil, resgatando em você o coração de menino.  Ah, os mistérios do tempo... Quem ousaria decifrá-los?

Lembro que era domingo porque ainda muito nítida em minha memória a figura plácida de vovó, metida num vestidão branco que lhe escorria aos pés, o véu negro sobre a cabeça e uma fita azul de Nossa Senhora do Rosário pendurada no pescoço. Acabara de chegar da missa, no momento em que vovô proseava com seu contemporâneo primo, ambos a moverem lentamente suas cadeiras de balanço, como se empreendessem ritmo às amenidades de outrora.

Enquanto Leôncia preparava a mesa para servir a coalhada das nove, escapuli pela porta lateral do casarão de muitas histórias e fui ao encontro da turminha lá no oitão da igreja, onde todos já faziam piruetas montados em suas belas Monarks e Gullivers, cada garoto querendo se exibir mais que o outro.

Marquinho soltava as mãos do guidom, tirava fino na castanholeira da praça, dava uma quebra pra esquerda, retomava o controle da magrela e desferia um peteleco no pedal, para trás, com a sola do pé, pois gostava de ver e sentir a catraca deslisando na corrente bem lubrificada fazendo aquele barulhinho de conchas derramadas. Zé Maurício subia no selim, firmando-se no guidão, bunda pra cima, e por vezes até se aventura soltar uma das mãos. Nonato era o único que conseguia manter-se de pé sobre o quadro, e muito se gabava dessa sua habilidade. Quanto a mim, ainda me encontrava na fase do sobe-cai. O máximo que conseguia era dar algumas pedaladas e depois desembestar na calçada até ser contido por um muro. "Não é assim não, otário!" - gritava de lá o Zeca. "Tem que olhar pra frente!" - completava. E lá ia eu de novo, querendo mostrar firmeza, para cair alguns metros depois, subir novamente e...

A dificuldade maior em dominar a bicicleta, aprender todas as manhas, era pelo fato de eu ser muito pequeno e também por não possuir uma, em que pudesse treinar mais vezes. Os meninos é que me emprestavam as suas, e eu era obrigado a enfiar a perna direita pelo vão do quadro, já que montado no selim, não daria para alcançar o pedal. Ainda assim, nunca desisti.  Naquele dia, tomei a decisão de que tentaria pedalar montado diretamente no quadro, no meio da rua, embora tendo que ficar todo tempo me esticando de um lado para outro. Foi, porém, a melhor forma que encontrei para libertar-me de vez daquela angústia. E também a pior, por conta da minha ousadia. Nesse ponto, inclusive, me ocorre nova reflexão, que, por certo, entreteria muitos filósofos e poetas: a felicidade nunca é completa, mesmo no seu estado natural e no momento em que se origina.

Escanchei-me no quadro, tracei uma reta imaginária e deslisei rua abaixo, olho grelado num ponto indeterminado, conforme me prevenira o Zeca: "olha pra frente, olha pra frente". Aquele ventinho gostoso arrepiando meus cabelos, coração em tempo de saltar pela boca, o sobe-desce dos pedais; vrummmmmm. As casas passavam por mim rapidamente em slides, os postes se amiudavam, as árvores se confundiam numa só e, de repente, o baque. Tum!

Quando dei por mim, eu estava no chão. A bicicleta, toda torta, ao lado. A correria dos meninos na minha direção, gritando, apreensivos. Um senhor, de chapéu, acocorou-se ao meu lado, perguntou se eu estava bem e pediu que eu não me mexesse. Num instante eu me via no centro de uma roda de pessoas. Foi quando percebi que sangrava do joelho, e que também havia um jipe nas proximidades. "Ainda bem que o carro vinha devagar e só pegou de lado quando ele cruzou a preferencial" - disse uma senhora. "Pois é, poderia ter sido muito pior" - fez-lhe coro uma mocinha.

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