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28.12.09

Mais um Milagre do Padre Cícero

Literatura de Resultados
Astolfo Lima
Muitos caras se projetaram na literatura através de livros medíocres, mas de grande valor comercial. Livros curiosos, cretinos, difamatórios, libidinosos, de fofocas, esotéricos, biografias alheias furtadas ou forjadas, plágios de obras famosas, recortes de grandes reportagens, fragmentos de histórias, enfim... Uma gama espetacular de assuntos, sempre dirigidos a um determinado público e de acordo com o catálogo de determinadas editoras. Tudo bem que, dentre esses oportunistas, muitos sejam apenas escritores de rótulo. Outros, contudo, o são na sua totalidade, uma vez que também produziram boa poesia, romances, contos etc. Só que, ao perceberem que jamais haveriam de ganhar notoriedade com esse tipo de escrita, resolveram partir para o tudo ou nada. Caso de Paulo Coelho, cujo talento é inegável, mas teria se notabilizando apenas como parceiro de Raul seixas se permanecesse escrevendo seus livros-cabeça. Raul, aliás, foi quem lhe deu o toque: "seja mais simples". E ele foi até demais.
Outros que se deram (e ainda se dão) muito bem no cenário editorial por meio dessa escrita de resultados: Ruy Castro, Fernando Morais, Mário Prata, Millôr Fernandes, Luís Fernando Veríssimo, Moacir Scliar - para citar apenas os mais notáveis, e também sem querer tirar os méritos de Millôr ou de Veríssimo, que teriam a mesma projeção ainda que só escrevessem humor nos jornais e revistas. E a esse time da pesada - constantemente nutrido pelo mercado editorial mercantilista, está se engajando o nosso Lira Neto.
De Lira, ainda que lhe quiséssemos minimizar o talento literário, não poderíamos deixar de louvá-lo pela coragem (não diria cara de pau) de produzir um livro sobre a personalidade mais arduamente dissecada em toda a história do nosso país (quem sabe, do mundo), inclusive por insuspeitos PHDs de renomadas Universidades, e de ter concedido a esse negócio um caráter de autenticidade. Foi demais! Se bem que o autor possa ter acrescentado pouco nessa questão de legitimar a obra, uma competência exclusiva dos editores, já que o esquema funciona pelo automático com relação a qualquer livro marcado, que já sairá no topo da relação dos mais vendidos e amparado em resenhas mil da crítica de cabresto alojada nos jornalões e revistas.
Ora, meus amigos, não há absolutamente nada sobre o Patriarca de Juazeiro que já não tenha sido dito em livros, folhetos, literatura de cordel, ou no boca-a-boca em todas as feiras do nordeste. Impossível captar-se em alguma brochura qualquer coisa que já não tivesse sido anotada por Rodolfo Teófilo, Rui Facó, Nertan Macedo ou Abelardo Montenegro. Isso sem falar nos mais de quatrocentos livros de autores menos conhecidos já escritos sobre o santo cearense; nas milhares de cantorias gravadas em livretos; nas encenações e nos tradicionais relatos sobre homens e fatos do Cariri. Se existe algo de "novo" nesse livro, seria a movimentação no sentido de resgatar a santidade do padre perante o Vaticano. Ou seja, um assunto meramente jornalístico e também exaustivamente já discutido, inclusive aqui na Internet, em inúmeros sites e blogs. Em outras palavras: se por um lado o livro deve ser respeitado por se constituir o trabalho jornalístico de um profissional, por outro deve ser visto como apenas mais um engodo de uma milionária casa editorial. Podem ter certeza que o próximo passo será o Prêmio Jabuti.

25.12.09

Poder Literário e Outros Poderes

O Acervo da Biblioteca de Alexandria
Astolfo Lima
O homem busca o Poder para imbuir-se da falsa sensação de eternidade, mesmo diante da certeza de que tanto sucumbirá ele quanto a obra que por ventura vier a produzir, não sendo essa altamente meritória. O homem mata pelo Poder. Destrói. Trai. Corrompe e se deixa corromper. Não é simplesmente, porém, o poder da grana, das armas ou o da política em si aqueles que maiores danos podem causar a uma sociedade. O mais devastador de todos os poderes é o que emana de um sistema sutil e supostamente essencial para o desenvolvimento da raça: o mundo da escrita - esse universo que tanto pode trazer benefícios como nos arruinar de modo irreversível, dependendo apenas dos interesses de quem o manipula. O Poder literário estabelece as obras que devem ser publicadas, da mesma forma que seleciona os autores a serem legitimados ou destruídos. Tudo isso com ares de legalidade, uma vez que endossado pelos mandatários de outros poderes não menos espúrios.
Imaginemos o quanto a humanidade teria registrado em papiros desde 3200 anos de Cristo, quando o homem obteve o domínio da escrita e passou a contabilizar os seus produtos e arrecadações, ao mesmo tempo em que também se desenvolvia no mundo alguma forma de pensamento artístico ou filosófico e muitos se davam às anotações dessas coisas como um processo natural da evolução humana. Pois muito bem: tudo isso para que, dois mil e tantos anos depois, outro sujeito tivesse a sublime idéia de criar uma estupenda biblioteca que pudesse abrigar toda essa substância cultural produzida até então, longe de imaginar que outro indivíduo - agora no poder que lhe fora arrebatado - simplesmente destruísse tudo, sob alegativa de que nada daquilo teria qualquer valor para as gerações futuras! Pensou? Pois é.
Quando o cara mandou tocar fogo na Biblioteca de Alexandria, provavelmente não exercitava apenas o seu poder arbitrário. Queria, antes de tudo, estabelecer um conceito. Implementar uma idéia. Apagar da história tudo aquilo que fosse contrário ao seu próprio pensamento. Uma monstruosidade que, até hoje, não foi possível de ser mensurada em toda sua extensão, no quanto de malefício teria causado à humanidade. Ora, se o tirano preservou apenas os trabalhos de Aristóteles, o que nos garantira que não houvesse ali naquele precioso acervo exterminado outros filósofos da mesma envergadura desse? Quantos poetas épicos terão sucumbido ao massacre? Quantos sábios, profetas ou mesmo simples e sinceros observadores das coisas do seu tempo terão realmente escapado?
Dessa forma o poder literário vem se mantendo ao longo do tempo, sem que nenhum outro ouse contestá-lo. Se fizermos um ligeiro retrospecto sobre a História da Literatura na era dito moderna, ou da Filosofia e das artes de um modo geral, qualquer estudioso será capaz de enumerar todos os movimentos e correntes, em qualquer parte do mundo, inclusive com a citação de seus signatários, autores e livros mais representativos, embora isso em nada nos assegure que estejamos diante do melhor e mais representativo de uma época. E aí?

No próximo capítulo, uma ligeira reflexão sobre esse poder nefasto em uma província.

17.12.09

Conto do Livro Paredes do Tempo - Ainda Inédito

Paredes do Tempo
Astolfo Lima

Já não sabia se o pesadelo era meu ou dela. Os gritos pareciam reais, agudos, intermináveis. Levantava-me em sobressalto, abria a porta do quarto e deparava os contornos de sua sombra a se projetarem na parede da sala. Aproximava-me, pé ante pé, e a encontrava na cozinha, a preparar um hambúrguer; geladeira escancarada. Tortura branda. Apagava a luz e me recolhia novamente, sem trocar palavras. Na manhã seguinte ela me falaria em sentimentos de culpa, traumas da infância, um turbilhão de queixas que me acompanhariam pelo resto do dia, comprimindo meu cérebro em remorsos que não eram meus. À noite, detinha-me ao máximo pelos bares da orla, ao cheiro de fumaça, àquele torvelinho de assuntos inconseqüentes, inebriando-me ao som de uma música ordinária; vísceras encharcadas em porres monumentais que estavam se tornando uma constante desde que ela viera habitar o meu sonho. Por vezes apagava por lá mesmo. E quando despertava, em hora indeterminada, percebia que uma qualquer havia me jogado sobre a colchonete de um quarto imundo, depois de me depenar o último centavo. Retornava.
“Por que me tratas assim? Quero morrer!” – ela urrava em silêncio, a me encarar, feroz, mal eu transpunha a soleira da porta. Olhos injetados em ódio ou paixão, salientes, e um sorriso amargo, distante. A latinha de cerveja sobre a TV; no chão um prato de salsichas, moscas e restos de bebida. “Você conseguiu dormir?” – eu perguntava, automático, como no pesadelo, e ela balançava afirmativamente a cabeça, encolhendo-se a um canto, mastigando rancores.
Regras de um jogo que não fora proposto por mim, truques que eu ainda não assimilara de todo. Paredes úmidas, desbotadas; um velho pôster dos Beatles que viera como encarte do álbum branco, em vinil, pendente sobre o micro; calor irritante e um cheiro forte de perfume barato. “Me beija a boca, vai! Agora; quero sentir o teu hálito, ver com quem estiveste até agora” – dizia sempre, como num pesadelo, pondo-se de pé, trôpega, jogando para o lado a sandália única de tiras soltas. E eu a beijava com voracidade, também como num pesadelo, longamente, mantendo-a dócil e apertada sob meus braços torniquetes. Para que não me deixasse só. Depois nos esparramávamos ao chão e fazíamos amor, como num pesadelo. O silêncio, o mosaico em cruz de malta enegrecido em pontas de cigarro; a estante torta; o prato de plástico devorado por insetos e sobras de delírios; tudo como num pesadelo. E nós gozávamos alucinadamente ao feitio dos animais, e depois nos dissolvíamos. Os dois. Como num pesadelo. Eu já não escutava seus murmúrios e ela provavelmente não sentia mais o meu corpo.
Ao entardecer, eram os pardais a nidificarem as galhas do fícus-benjamim. O vento morno, a rua deserta, nossas roupas mais íntimas penduradas no varal, que eu observava através da janela. Ela se aproximava, me fitava longamente e se encolhia junto de mim. Bem junto de mim, no sofá de estampas orientais. Passava a mão suave sobre meus cabelos ralos, falava-me de coisas obscenas, colapsos da mente, vertigens, convulsões espirituais, viagens por lugares distantes, caminhos longínquos e absurdos a serem percorridos... por nós. E eu a escutava sem proferir palavras. Inclinava levemente a cabeça sobre seu ombro, fechava os olhos e viajava, letárgico, por sobre as “paredes do tempo” – como me diria depois, já à mesa, para comermos alguma coisa, e onde também me falaria da glória infinita, paciência dos anjos e querubins, privilégios, células mortas – em divagações que se estenderiam até que a noite irrompesse novamente para remover de dentro de nós todos os espantos e melancolia.
Nossas manhãs eram tão raras, quase inexistentes. Sem muito brilho, despidas de cores mais vivas, cheiro da terra, luzes, burburinho da rua. Sempre se faziam tardes ressequidas em fragmentos de sonhos, quando o sol já dissipara todos os vestígios do amanhecer. Os pardais. Restos de comida pelo chão. Recipientes de plástico, alumínio, papelão espalhados pela sala. A geladeira semi-aberta. O varal, nossas roupas, o silêncio. A estante torta que acolhia agora apenas o aparelho de TV e um livro de James Joyce; os demais, todos por ela removidos e nesse instante ao abandono no quartinho dos fundos. Eu havia prometido a mim mesmo que leria Finnegans Wake completamente, mas não consegui. Perdi o interesse. Nas inúmeras tentativas, sempre me deixava vencer pelo tédio. Por ela. Pelas sombras da noite longa, interminável, que se aproximava velozmente para nos absorver. Os dois. Ou nos redimir de todas as culpas.
Lembro que apenas uma vez despertei com os primeiros raios da manhã. Senti um perfume suave a invadir nosso quarto e, ao longe, uma velha canção de Paul Anka. Não recordo que tivesse havido gritos ou espantos durante a madrugada. Sei apenas que me parecera uma noite longuíssima em que, pela primeira vez em muito tempo, eu despertava sem me impor limites ou culpas. Ela já não estava a meu lado, como de costume, mas achei normal. Abri a porta, também não se encontrava na sala, nem na cozinha. Sobre o vão do corredor um recente rosto de Papai-noel pendurado no teto me fez perceber que já era dezembro. Alguém o colocara ali sem que eu tivesse tomado conhecimento. Assim como o enfeite de Boas Festas, as minúsculas bolas coloridas e o pequenino sino prateado. Minha estante – agora no prumo – voltara ao lugar de origem e suas prateleiras abrigavam outra vez todos os meus livros. Tudo tão diferente, sem que, porém, me causasse qualquer assombro. “Paredes do Tempo” – do jeito que ela me falava, ainda que eu jamais tivesse alcançado o significado dessa afirmação. Convulsões da alma. Vertigens. Tempo fragmentado. Um mundo em nós mesmos. Meu silêncio. Não ousaria interrompê-la em seus pesadelos, que de alguma forma também eram meus. Vidas paralelas. Universos distintos. Se bem que...
Nesse instante alguém bateu levemente na porta. Como se o fizesse com o nó do dedo médio e já soubesse de minha presença ali. Toc! Toc! Era ela. Senti antes mesmo que fitasse em mim o seu olhar de longa espera. E a vi tão completamente feliz que até derramei uma lágrima antes de lhe pedir que se acolhesse junto de mim. Que me falasse mais uma vez de coisas obscenas. Percorresse meus cabelos ralos com a maciez de suas mãos. Estava infinitamente meiga e sensual quando me beijou a face e se abriu num sorriso de reencontro...
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