Todas as minhas investidas no ramo da literatura têm sido inúteis. Se tento algo mais cabeça, sou ignorado pelos tolos; se invisto nesses, sou repudiado por aqueles que, na verdade, nem são. Daí que resolvi escrever apenas para mim mesmo. Se isso os incomoda, fodam-se!

17/04/14

Enquanto ela me dizia de flores e colibris

Ilustração de ALS


Miss Blond

Astolfo Lima

Agora responda-me: você seria capaz de dizer se sou quem sou pelas minhas afirmações, ou não penso nessas afirmações e por isso não sou?
Vamos, responda-me, Miss Blond! Entrei aqui apenas para descontrair, compreende?
Você quis saber se eu estava disponível, respondi afirmativamente e você passou a expor suas idéias sem qualquer interferência minha.
Acho justo que agora me conceda a sua atenção.
Se quiser sair, fique à vontade. Devo prevenir-lhe, porém: sou imprevisível (risos).
Cavalheiro? Bem... Logo mais poderá ter opinião diversa a meu respeito.
Talvez até me chame de cafajeste.
Vai ficar? Ok.
As pessoas por aqui falam de religião, literatura e sexo com a mesma desenvoltura e naturalidade.
Quanto a mim, quero só exercer o meu direito de opinar.
Suas observações acerca do homem e do seu papel no universo, por exemplo, nada me dizem.
Não explicam coisas elementares. Nenhum filósofo explica, aliás.
Todos apenas especulam sobre a vida.
Tentativa de entender a própria (risos).
Nada é lógico neste pequenino mundo habitado por nós, miss Blond.
Eis a verdade absoluta, concorda?
Você disse que a Filosofia é ato de saber suportar serenamente os acidentes da vida, mas não justificou afirmação anterior sobre sua constante busca da felicidade.
Procura a virtude e não domina as paixões – deixa claro.
Exercita as atividades intelectuais de uma forma pouco convincente.
Não creio na reflexão à luz de teorias.
No meu raciocínio o homem se define pelas ações e não pela divagação emotiva.
Só aceito a reflexão sobre o homem real.
Parte da sociedade e dentro de um contexto histórico.
Não se trata de coisa absurda, miss Blond.
Se partirmos do absurdo da tese contrária, poderemos concluir pela verdade da tese lógica.
Li isto num livro antigo: o absurdo é um raciocínio lógico, mesmo se verificarmos que o contrário da tese é incompatível com a hipótese.
Para você seria mais cômodo desviar-se do palpável e refugiar-se no imaginável; para mim, não.
Você, diferente de mim, talvez ache irrelevante o fato de Freud ter classificado a religião como neurose obsessiva, da qual o homem só se libertaria ao atingir a maturidade plena.
Acredito nas coisas analisadas dentro de um contexto histórico, filosófico e social.
Tudo está relacionado.
Acho significativo que Jean Paul Sartre tenha morrido ao se iniciar a guerra no golfo pérsico (saldo de 700 mil mortos). Você talvez não.
Ou que John Lennon tenha sido executado em frente ao edifício Dakota por um fã em cuja mão carregava exemplar de “O Apanhador no Campo de Centeio”.
A propósito, miss Blond, quem foi mais significativo para a cultura ocidental: John Lennon ou Jean Paul Sartre?
Nessa imensa fábrica de brinquedos em que circulamos, parvos, tudo se relaciona de alguma forma, miss Blond.
Enquanto os Beatles gravavam o último disco na Abbey Road, nossos patrícios cantavam "Pra frente Brasil" e a tortura corria solta em nosso país. Lírico, não?
Seis anos antes o povo paulista invadia as ruas numa passeata monstro para dar aval a um golpe militar.
O mesmo povo que já fora proibido de dançar Rock n' Roll por um Prefeito desvairado que chegaria a Presidente da República.
Música é alegria e também patriotismo, miss Blond (risos).
Geraldo Vandré ganhou um festival internacional da canção no Peru com a música Pátria Amada, Idolatrada, Salve, Salve e depois ficou sonado por levar tanta porrada dos terroristas de Estado.
Mas nem por isso deixou de ser patriota. Sabia disso, miss Blond?
Você não deveria nunca divagar na filosofia especulativa nem no ceticismo de fachada.
Fique esperta, miss Blond (risos).
Enquanto viveu, Anatole France foi violentamente atacado pela Direita; depois da morte, pelos surrealistas, por conta do seu ceticismo sorridente.
Quando o nosso país tinha quinze aninhos de existência, Maquiavel já havia estabelecido as normas de como se preservar um Governo lançando mão da violência e da fraude, ok?
Quase dois mil anos depois, nossa seleção de futebol conquistava o tri no México.
Terra de Zapata e Pancho Villa.
Um revolucionário iletrado, porém astuto.
Invadiu os Estados Unidos, enfrentou o exército ianque, sofreu insubordinação da própria tropa, ataque de gringos mercenários, até ser brutalmente assassinado em um rancho, quando queria apenas criar cavalos.
Martin Luther King ganhou o Nobel da Paz e também foi eliminado logo em seguida com um tiro no peito esquerdo, enquanto acontecia o desembarque de tropas americanas no Vietnã.
Guerra concluída oito anos depois.
Saldo de sessenta mil heróis na vala comum, trezentos e cinqüenta mil mutilados, setecentos e oitenta mil feridos, três mil desaparecidos e mais uma legião de seres delirantes ainda hoje perambulando por ai e rendendo fortuna à indústria cinematográfica norte-americana.
Responda rápido, miss Blond: se o Bem e o Mal são dois princípios a se combaterem eternamente, por qual razão o primeiro – suposto representante das entidades mais sublimes - leva sempre desvantagem?
É, miss Blond, a vida não é brincadeira.
Bem diferente do que supunha aquela americana que inventou a boneca Barbie como padrão de beleza para as demais patricinhas do mundo.
Falar sobre mim?
Não fiz outra coisa até agora.
Analisar a história é também dizer de mim.
Faço parte da síntese.
Ok, procurarei ser mais didático.
Você segue por uma rua com árvores frondosas nas duas margens. Duas, porque a referida rua tem caminho de ida e volta. Você vai.
De repente avista uma luz vermelha sobre a fachada do casarão em estilo gótico.
Aproxima-se, escuta o som de Waldick Soriano - nosso Frank Sinatra - e logo verifica que está diante de renomado cabaré.
Sou eu, miss Blond.
Rapazinho surgindo no palco da vida, enquanto dois homens barbudos ganhavam notoriedade depois de invadirem famosa ilha no caribe.
J. J. da Silva, eu, também parte da História e da paisagem, evidentemente.
Aprendi cedo: todo indivíduo tem direito ao nome, à honra e à vida.
Isso se as autoridades constituídas não resolverem subtrair de você esses apêndices.
Não se trata de vulgaridade essa minha referência a um prostíbulo.
A filosofia contemporânea muito deve aos prostíbulos.
Antro de Prazer e não de marginais.
A propósito, defina o ser marginal, miss Blond!
Bukowski, autor de “Notas de um Velho Safado”, que morreu gargalhando do Sistema, seria marginal?
E Charlie Parker, um comedor de heroína que inspirou Julio Cortázar em um conto magnífico ao perder o sax no metrô?
E Meneghetti, o italiano que aqui desembarcou para fazer a América de baixo e foi julgado mais tarde pelas autoridades como reles gatuno, por conta de suas afirmações de ser a propriedade fruto do roubo?
E também porque achava injusto ser chamado de ladrão pelo singelo motivo de fazer a divisão de bens à sua maneira.
Camus nunca viu no romântico larápio um simples marginal.
Foi visitá-lo na prisão e saiu dali impressionado com suas teses libertárias.
Seria Camus também um marginal?
Quer sair, fique à vontade, miss Blond.
Não?
Certo.
Então observe: a prostituição já foi profissão de respeito, quando ligada aos ritos religiosos dos fenícios e babilônios.
Na Grécia antiga as prostitutas se faziam admirar não apenas pelos dotes físicos, mas sobretudo pela inteligência.
Friméia sobressaiu-se às demais.
Tendo sido acusada de impiedade, seria absolvida depois de ser instada a despir-se diante dos Magistrados.
Aspásia, além de bela e inteligente, ao casar-se com Péricles exerceu sobre ele enorme influência.
A prostituição só se degenerou a partir da idade média, quando teve o caráter de profissão reconhecido pelas autoridades e se constituiu fonte de renda para o Estado.
Todos nós das gerações anos sessenta e setenta nos iniciamos na zona meretrícia, miss Blond.
As moças seguravam a virgindade na esperança de capturar um homem de bem (risos).
Nos restava a zona.
Os anos sessenta foram puramente emblemáticos, sabia?
Apenas aperfeiçoamos descobertas e destruímos conquistas.
Não houve revolução cultural, miss Blond.
Bem diferente daquilo que você imagina.
Tudo já existia nos anos sessenta, miss Blond.
Rádio, telefone, Jazz, hipocrisia.
A miséria, o sonho, os poemas de Augusto dos Anjos, o avião e as artes plásticas.
A mentira, a penicilina e a traição, os melhores perfumes e vinhos, a cachaça.
A Revolução Francesa, Baudelaire, Shakespeare e a TV.
O carro, a brilhantina, Picasso e o papel higiênico.
Tudo, tudo, miss Blond.
Se muito fizemos, repito, foi aprimorar mecanismos de extermínio em massa.
Cultivar a chantagem e a dissimulação.
Depois que os experimentadores da bomba detonaram Hiroshima, eliminando 100 mil no ato, não pararam mais.
Jogar substâncias químicas na cabeça de criancinhas e velhos foi mera profilaxia.
A chamada Revolução Cultural nunca existiu, miss Blond.
Nem de mentalidade.
Tudo mistificação.
Que contribuições trouxeram para o crescimento da alma o movimento hippie, a mini-saia e a maconha? Marilyn Monroe, Elvis Presley, Andy Warhol, Beatles e Woodstock?
Qual foi o lucro da humanidade com a invenção do Sputnik, a chegada do homem à lua e a descoberta do videoteipe?
Desculpe-me outra vez por me desviar do essencial, miss Blond.
Eu falava de Zona e de J. J. da Silva, eu, inserido num contexto histórico, filosófico e social.
Percorrendo mundos.
Frequentando assiduamente os lupanares da vida.
Atualmente existem chalés, albergues, motéis e o chamado sexo virtual (risos).
Já experimentou, miss Blond?
Não curto.
Gosto de trepar no meu carro.
Nada mais romântico que rua deserta, cheiro de gasolina e uma mulher no torno.
Não falei Adorno, miss Blond!
Se bem que tenha algo a ver com a dialética, a música, o neoclassicismo de sua tese moralista e com a minha crítica da cultura, da sociedade e da razão impura (risos).
Iniciei-me na zona com quinze aninhos.
No meu tempo era coisa normal iniciar-se na zona com quinze.
O pai fazia questão de levar o garoto pra zona.
Para que não viesse a morder a fronha mais tarde.
Minha primeira vez foi à época em que Caetano Veloso, bebendo em José Agripino Pan América de Paula, cantava Alegria, Alegria, e se achava o Freudão.
Ainda se acha.
O cabaré tornara-se o reduto preferido de vagabundos do meu naipe.
Agora, não mais.
Nunca fui vagabundo, miss Blond.
Entenda.
Só se você quiser analisar pelo ângulo de quem vive lendo de forma compulsiva e idiota os "livros fundamentais" para uma boa formação.
No meu tempo de menino, todos os adultos ao redor tinham suas relações de livros fundamentais.
"Vou lhe apontar dez livros essenciais para engrandecimento do espírito.”
Cansei de ouvir.
E lá se ia eu, indefeso, na extenuante leitura de Coelho Neto e Camilo Castelo Branco.
Só o tempo me faria compreender a inutilidade desse gesto.
"A Odisséia é indispensável para a boa formação” – cansei de ouvir.
Que formação, brother?!
Leio agora apenas o estritamente necessário.
Comecei a ler Baudelaire, minha mãe tocou fogo nos Comedores de Ópio.
Quis redimir-se depois me dando de presente A Divina Comédia.
Não surtiu efeito.
As melhores leituras de minha juventude foram os livros de Adelaide Carraro e os faroestes do Stefania. Pseudônimo de um intelectual que escreveu mais de dois mil livros de bang-bang e nunca ganhou o Nobel de Literatura.
Injustiça.
Grande inspiração estava ali.
Antes de produzirem os melhores folhetins, renomados autores de novelas televisivas ainda hoje vão beber nessas duas fontes.
Histórias fechadinhas; começo, meio e fim.
Nada de subterfúgios.
Linguagem acessível e não cerebral.
Linearidade jorgeamadiana.
Comecei a ler Joyce tentando analisá-lo à luz da psicanálise.
Saí da leitura mais cego.
Ninguém entendeu Ulisses.
O livro foi feito para não ser decifrado.
Afirmar o contrário é querer impressionar os neo-modernistas mais renitentes.
Antes de analisar James Joyce, necessário se faz percorrer a história.
Verificar os acontecimentos em curso naquela ocasião.
Ulisses surge com o nascimento da União Soviética, a queda de Pancho Villa, ascensão de Rodolfo Valentino e fim de Caruso.
O livro nasce com Trotski comandando o Exército Vermelho, exterminando tropas revolucionárias patrocinadas pelo Reino Unido, França e Japão.
Enquanto Joyce dava o toque final na sua autobiografia, Schönberg já havia revolucionado a história musical do século e Gershwin apresentava ao mundo a sua Rhapsody in Blue.
O cenário visitado pelo velho irlandês, naquela oportunidade, estava, portanto, sob controle.
Aberto às experiências.
Entre nós, ufanistas e desvairados, também havia o desejo utópico de renovação espiritual, rompimento de amarras.
O sonho inatingível de proclamar a independência cultural do país (risos).
Utopia da qual resultaria a semana de arte moderna.
Palco de vaidades e escassa produção artística.
A exceção teria sido Heitor Villa-Lôbos e não Mário de Andrade – assim entendo.
Poetas demais, versos de menos, sobressai-se o músico.
O melhor de todos os poetas nacionais, Augusto dos Anjos, é pré 22. João Cabral de Melo Neto, Vinícius e Drumonnd, pós.
Hoje é tudo fotocópia, miss Blond.
Pelo menos os expostos na mídia.
Fraudes imensas reunidas em antologias e vendidas como mercadoria de primeira.
Patético.
Sabe-se da existência de minúsculos focos de resistência.
Abnegados combatentes.
Visionários na produção de uma literatura de qualidade.
Lendo, estudando, escrevendo.
Embora reconheçam a impossibilidade de serem publicados.
A não ser pagando do próprio bolso.
Escrevendo pra posteridade, vem um míssil americano, explode essa porra toda e não sobra nem pensamento.
Desculpe novamente se me desviei do essencial.
Eu falava de J. J. da Silva, no caso eu.
As autoridades viam em mim um inimigo sempre a conspirar contra o Estado.
Tudo, claro, por conta de minha compulsão pela leitura.
O homem letrado sempre mete medo a qualquer mandatário, percebeu?
Lia de forma soturna, sistemática, me esgueirando pelos bancos de praça.
Na privada, de noite, no lotação e nos trens da estação suburbana.
Pegaram-me de jeito e me enfiaram numa prisão militar.
Para testar minha reação, creio.
Eu lia Dostoievski e não gostaram dessa preferência ilógica por autores russos. Dias antes já me haviam flagrado lendo Gorki.
Disse que era leitor assíduo de Gustavo Corção e Austregésilo de Ataíde, mas não teve jeito.
Naquela oportunidade éramos todos inimigos do grande mandatário, miss Blond.
Foi ao tempo da primeira gravação de "Something".
Hoje só escuto "Something" interpretado por Tony Bennett.
Voz superior a de Sinatra, dizem.
Ouvia Beatles ao lado de interessante prostituta lotada no sul do país, fã incondicional de Dalva de Oliveira e Lupcínio Rodrigues.
“Você sabe o que é ter um amor, miss Blond?"
No começo eu lá comparecia para beber cuba-libre e me aliviar; depois, para pedir asilo.
Despejava mil fichas no radiolão semelhante a um fliperama de hoje e ficava curtindo Beatles.
Tempo bom para uns, inquietante para outros.
Não tenho saudade.
Jovem guarda, João Gilberto, Festivais da Record, invasão da Tchecoslováquia, e do Brasil pelos baianos da tropicália,
Rita Lee, Mutantes, Chico Buarque e Zé Kéti.
Protesto de rua, resistência em poucas Universidades, Blues e Bob Dylan.
O advento da música goiana só se daria com o nascimento do primeiro bebê de proveta e logo após o casamento da Lady Di, a morte de Júlio Cortazar, do Fusca e de Chico Mendes.
Minha geração foi quem ajudou a construir esse magnífico cenário em que você se diverte e cuida como o melhor dos mundos possíveis, miss Blond.
Eu falei minha geração, percebeu?
Não disse "eu".
Nada tenho a ver com esse monumental baile de máscaras.
Agora sorri do meu papo.
Mas não se sensibilizou antes com as minhas citações de Heidegger, de quem admiro o trabalho sobre Hölderllin.
O poeta que enlouqueceu por amor e produziu uma obra tão importante quanto à de Goethe.
Você toparia viver comigo outra grande loucura de amor, miss Blond? (Risos).
No mundo torpe das letras nacionais o livro de auto-ajuda e a literatura de cordel sobressaem-se às teses acadêmicas - previno-a.
Enquanto você conclui seu trabalho sobre o Iluminismo, tentarei montar dois ou três livros descartáveis.
Não requer conhecimentos.
Farei isso via Internet, pesquisando obras antigas e fazendo ligeiro estudo a respeito do inconsciente coletivo.
Barbada.
Também não descarto as biografias não autorizadas de grandes farsantes da História.
Ou não farsantes.
Basta hospedar site na internet e solicitar colaborações aos internautas sobre o indivíduo a quem desejo biografar.
Desse modo talvez eu comece pela montagem de um livro sobre nosso mais autêntico herói caboclo: Virgulino Ferreira, vulgo Lampião.
A morte do rei do agreste coincide com rico período da nossa história.
Posso fazer bela armação.
Coluna Prestes, Padre Cícero, Floro Bartolomeu e Beato José Lourenço - o cearense que criou um boi milagreiro cujas fezes, vendidas em vidrinhos, curavam todo tipo de moléstia.
Literatura, hoje, só para os gênios do disfarce, miss Blond. .
O embromador cultural propõe um mote e as figurinhas carimbadas na mídia abaixam a cabeça e executam o serviço na hora.
Rende muita grana a esses grandes mestres na arte de ludibriar.
Não há mais espaço, entre nós, para quem se propõe fazer literatura.
Se não entrar no esquema, estará descartado.
Hoje, para o jovem, é mais aconselhável escolher a profissão de jogador de futebol.
Se for mulher, remexer os quadris e representar na TV.
Se o indivíduo não puder fugir ao vício pelas letras, pelo menos nunca deve pensar em exercitar a verdadeira literatura.
Basta copiar a cópia das experiências bem sucedidas.
É a geração big brother ditando os rumos da cultura, miss Blond.
A grande revolução decantada pelos detentores de marcas e patentes.
No futuro ninguém saberá se nasceu do espermatozoide ou da costela de um hermafrodita.
Na parte II da obra de Karl Marx (ainda inédita) ele prevê a morte definitiva do Capital e o advento de uma sociedade voltada apenas para as artes, sabia, miss Blond?
Ok, vamos mudar de assunto.
Se me permitir, posso falar o dia inteiro sobre a inutilidade da literatura.
Embora não me considere mais um animal pensante.
Amigo meu se formou em Letras, consumiu meia dúzia de anos preparando tese sobre o parnasianismo, outro tanto lendo Proust e foi ser operador de sistemas (risos).
A mulher prevenindo-o sobre a inutilidade da opção e ele insistindo.
Hoje não tem dúvida de que teria bastado o Curso de Inglês Virtual.
Embora permaneça ligado às letras, compreendeu a necessidade de o escritor se manter sintonizado com o seu tempo.
Escrever apenas para consumo imediato.
É pura balela se conceder descrédito ao país cuja literatura esteja relegada a plano secundário.
Vide nossa prosperidade, miss Blond!
De todo modo prefiro reler os velhos clássicos.
Você pode gargalhar sozinho ao situar Machado de Assis entre os mais bem-sucedidos cronistas do Império.
Descobrir em Pessoa o gênio farto de ressentimentos por não ter tido a virtude reconhecida em sua época. Analisar Pablo Neruda e ver nele, acima de tudo, o grande fingidor.
Por aí...
Falar mais sobre mim, Miss Blond?
Já não há muito o que dizer.
A partir de agora, se eu emitir qualquer conceito relacionado à minha pessoa, individualmente, soará falso. Quer ouvir, ainda assim?
Traçarei então meu retrato enquanto criança, trechos que também alocarei num romance revolucionário a ser publicado em breve, ok?
A esse tempo eu admirava a vida submersa das formigas fluindo sob meus pés.
Minha casa era branca, arejada e não muito distante das dunas também brancas.
Sentava-me no barro do jardim, pernas entrelaçadas, e começava a observar aqueles insetos formidáveis num vaivém contínuo e disciplinado, carregando o mundo em delicadas pinças.
Eu também queria ser formiga, miss Blond.
Transitar pelos labirintos da terra, entupir de folhas a enorme fenda do flamboyant.
O flamboyant ficava desfolhado no verão e seu esqueleto me causava forte impressão.
Surgia a noite, uma revoada de morcegos riscava a face da lua imensa e pálida e se dirigia veloz no rumo da torre da igreja e meu desejo se modificava rapidamente.
Em vez de formiga, queria virar morcego.
Ser morcego, logo compreendi, seria mais excitante.
O meu jardim tinha girassóis e dali eu aguardava o sol encolher-se em imenso girassol de ficção, para festejar o lençol da noite a me proteger do mundo.
Algo fantástico, miss Blond, e inexplicável - sabe?
Durante o dia, o sonho de ser formiga e me enfiar no buraco; à noite, virar morcego e sugar a seiva da madrugada e o pescoço de meus desafetos.
E enquanto mamãe se recolhia ao quarto, em oração da Ave-Maria, eu ficava na calçada para saudar a lua e os morcegos.
Papai, debruçado na janela, corujava todos os meus movimentos.
"Garoto estranho" - às vezes dizia.
Mamãe se aproximava e o conduzia manso para tomarem a sopa de tomates.
Eu admirava o matiz das flores minúsculas, pendentes dos jarros de porcelana, miss Blond.
Esperava que crescessem, então as arrancava todas; que murchassem, e as espalhava pelo jardim.
Para que as formigas com elas penetrassem a fenda no flamboyant numa fecundação absurda.
 Esse processo evolutivo muito me fascinava, miss Blond.
Mamãe plantava a semente no jarro de porcelana e sobre ela deixava cair o orvalho da noite.
As flores nasciam viçosas, aveludadas, magníficas.
E eu as arrancava pelo prazer de vê-las murcharem no chão e serem carregadas para o buraco.
Uma coisa mágica, contínua, fascinante.
Eu celebrava os girassóis ao modelo de sóis pequeninos, com todos os matizes do sol da tarde quase noite. Sentado no chão feito monge budista, pernas entrelaçadas, braços estendidos, olhar vagando lá na distância onde mente nenhuma alcançava, só a minha.
Não acha isso bastante poético e significativo, miss Blond?
Agora me fale de você, Miss Blond. 
Pensando bem...
 Melhor ficarmos por aqui. 
Você fala, eu marco um encontro no shopping, permaneço de longe, percebo como você é na vida real, nem me aproximo. 
Vou sair. 
Valeu! 
Tchau.