Literatura de Resultados
Astolfo Lima
Muitos caras se projetaram na literatura através de livros medíocres, mas de grande valor comercial. Livros curiosos, cretinos, difamatórios, libidinosos, de fofocas, esotéricos, biografias alheias furtadas ou forjadas, plágios de obras famosas, recortes de grandes reportagens, fragmentos de histórias, enfim... Uma gama espetacular de assuntos, sempre dirigidos a um determinado público e de acordo com o catálogo de determinadas editoras. Tudo bem que, dentre esses oportunistas, muitos sejam apenas escritores de rótulo. Outros, contudo, o são na sua totalidade, uma vez que também produziram boa poesia, romances, contos etc. Só que, ao perceberem que jamais haveriam de ganhar notoriedade com esse tipo de escrita, resolveram partir para o tudo ou nada. Caso de Paulo Coelho, cujo talento é inegável, mas teria se notabilizando apenas como parceiro de Raul seixas se permanecesse escrevendo seus livros-cabeça. Raul, aliás, foi quem lhe deu o toque: "seja mais simples". E ele foi até demais.
Outros que se deram (e ainda se dão) muito bem no cenário editorial por meio dessa escrita de resultados: Ruy Castro, Fernando Morais, Mário Prata, Millôr Fernandes, Luís Fernando Veríssimo, Moacir Scliar - para citar apenas os mais notáveis, e também sem querer tirar os méritos de Millôr ou de Veríssimo, que teriam a mesma projeção ainda que só escrevessem humor nos jornais e revistas. E a esse time da pesada - constantemente nutrido pelo mercado editorial mercantilista, está se engajando o nosso Lira Neto.
De Lira, ainda que lhe quiséssemos minimizar o talento literário, não poderíamos deixar de louvá-lo pela coragem (não diria cara de pau) de produzir um livro sobre a personalidade mais arduamente dissecada em toda a história do nosso país (quem sabe, do mundo), inclusive por insuspeitos PHDs de renomadas Universidades, e de ter concedido a esse negócio um caráter de autenticidade. Foi demais! Se bem que o autor possa ter acrescentado pouco nessa questão de legitimar a obra, uma competência exclusiva dos editores, já que o esquema funciona pelo automático com relação a qualquer livro marcado, que já sairá no topo da relação dos mais vendidos e amparado em resenhas mil da crítica de cabresto alojada nos jornalões e revistas.
Ora, meus amigos, não há absolutamente nada sobre o Patriarca de Juazeiro que já não tenha sido dito em livros, folhetos, literatura de cordel, ou no boca-a-boca em todas as feiras do nordeste. Impossível captar-se em alguma brochura qualquer coisa que já não tivesse sido anotada por Rodolfo Teófilo, Rui Facó, Nertan Macedo ou Abelardo Montenegro. Isso sem falar nos mais de quatrocentos livros de autores menos conhecidos já escritos sobre o santo cearense; nas milhares de cantorias gravadas em livretos; nas encenações e nos tradicionais relatos sobre homens e fatos do Cariri. Se existe algo de "novo" nesse livro, seria a movimentação no sentido de resgatar a santidade do padre perante o Vaticano. Ou seja, um assunto meramente jornalístico e também exaustivamente já discutido, inclusive aqui na Internet, em inúmeros sites e blogs. Em outras palavras: se por um lado o livro deve ser respeitado por se constituir o trabalho jornalístico de um profissional, por outro deve ser visto como apenas mais um engodo de uma milionária casa editorial. Podem ter certeza que o próximo passo será o Prêmio Jabuti.
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